Isto, há-que dizê-lo para lá de qualquer dúvida, é vergonhoso. Não porque eu seja um moralista anti-dança-das-cadeiras (sou-o quando a dança é constante, reiterada e sempre com os mesmos protagonistas, mas não necessariamente quando uma pessoa esporadicamente sai de um cargo para assumir outro), e sim porque Rangel se assumiu como tal na campanha europeia. O cabeça-de-lista do PSD esteve na linha da frente de um ataque cerrado às euro-candidatas socialistas que anunciaram também uma candidatura autárquica (Ana Gomes e Elisa Ferreira). Apesar de a doutrina puritana e formalista assumida pela liderança de Manuela Ferreira Leite de não candidatar ninguém a duas eleições de natureza diferente não estar aqui em causa, o efeito prático é semelhante: Rangel não abandona funções de eurodeputado para ser candidato a deputado nacional, mas fá-lo automaticamente se for convidado para ser ministro?

Paulo Rangel: moralista ou mais um politiqueiro? A maior credibilidade do PSD face ao PS fica em causa.
Porém, não se trata apenas de uma contradição com o posicionamento resultante daquela crítica ao PS. Rangel chegou a sugerir claramente, num debate, que só abandonaria o Parlamento Europeu “se morresse“. Passaram uns dias, e parece que tudo mudou. Não é, por isso, exagerado pensar que Rangel terá mentido deliberadamente aos eleitores – e isto, sim, coloca a seriedade (e a bandeira da “credibilidade“) de Manuela Ferreira Leite em cheque. Fica a parecer que a “moralidade” tem prazo de validade – a campanha eleitoral. Determinante será saber se este foi um acto isolado de Rangel, ou se teve a cobertura da liderança do PSD.
Termino com algum moralismo contra os moralistas: sendo certo que deve haver e que se deve promover a ética na política, é por coisas assim que não se pode confiar em políticos que passam a vida a pregar a moral e que não hesitam em atacar o mínimo sinal de “imoralidade” dos seus oponentes, como fez Rangel na campanha europeia. Estou francamente desapontado com este seu acto de contradição em relação à sua própria “moral”, e de engano aos eleitores – não que isso conte muito para fazer parar as falsas promessas dos políticos. Fica provado que não é por acaso, nem por culpa de apenas um partido, que as pessoas já não acreditam neles.






