Fui, como a maioria dos meus compatriotas, baptizado e crismado, com uma primeira comunhão pelo meio, mas não me sinto católico. A verdade é que, à semelhança de tantos outros portugueses, não escolhi a minha fé. Ela foi-me imposta à nascença, com uma cruz feita de água na minha testa, por um sacerdote de uma dada orientação religiosa, quando nem sabia o que isso significava. A crença católica foi-me imposta, por todos, desde os meus pais, à professora da escola primária, passando pelos homens bons da terra. E, no entanto, não se pode dizer que eu seja um católico. Ouvi um padre dizer que, uma vez católico, católico para sempre. Como acredito na liberdade religiosa (e a liberdade implica o direito de mudar), sei que aquilo em que nos tornamos é que define quem somos.
Também não sou ateu. Penso que o ateísmo acaba por ser uma atitude de certa forma primária, uma espécie de fenómeno semelhante à revolta do filho contra os pais, a dada altura, e que lhe permite atingir a maturidade. A nossa civilização vive uma certa adolescência, na descoberta da sexualidade (após os anos de “infância” em que isso era tabu), nos abusos (de substâncias nocivas, de produtos e bens), na luta por ideais muitas vezes inalcansáveis (sejam ideologias, sejam princípios de direito das nações civilizadas), mas também nos momentos de súbita sabedoria, na inteligência enérgica, na vontade de fazer. Por isso, é natural que a ideia de uma divindade seja alvo da irreverência, o que muitas vezes também se ficará a dever a um ataque contra, não a própria ideia de Deus, mas as instituições que a defendem, e que constituem o status quo.
Acredito numa força superior que nos ultrapassa, que está acima de nós e nos guia, que quer o nosso bem. Tenho fé em Deus, mas não estou disposto a submeter a minha fé à doutrina de quem quer que seja. Não admito nenhuma interpretação que me imponha o que é ou como deve ser exercida a fé. A Igreja não tem o monopólio da fé. As Igrejas são instituições religiosas, e bem podem promovê-la. Mas não são donas dela. Além do mais, a fé que elas promovem é uma fé, que não a fé. A fé vem de cada um de nós, independentemente de seguirmos o juízo que dela faça qualquer instituição. Quando concordamos, filiamo-nos. Caso contrário, não existe um problema, mas uma mera inexistência de laços, que não podem ser mantidos a título precário numa sociedade em que cada indivíduo tenha liberdade de consciência.
Mas isto significa mais: a fé não emana de nenhuma instituição. Podemos ter fé e não participar em nenhum culto, assim como podemos participar em todos os cultos do mundo, e não ter fé alguma. Podemos ascender na hierarquia eclesiástica até ao topo dos topos, sem ter fé (não me venham com aquela de o Espírito Santo entrar pelos cardeais adentro na Capela Sistina). Porque a Igreja (Católica ou outra) é uma coisa de homens, entre homens, e não de Deus, embora o tenha por objecto. E a fé é uma coisa de nós com Deus, e não com homens. O que distingue os homens de fé dos homens sem fé não é um vínculo institucional entre humanos; é o laço que os une a Deus. Por mais que a Igreja tente ser esse laço, a verdade é que o não é, nem nunca será.