Arquivos para a Categoria ‘Religião’

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A mulher na Religião

Março 17, 2009

Aproveito para retomar esta questão a propósito do post anterior e da visita de Estado dos reis da Jordânia.

O papel atribuído à mulher nas sociedades islâmicas não é apenas inaceitável. Para nós, ocidentais do séc. XXI, trata-se de algo intolerável. A mulher é aí, nuns casos mais, noutros menos, encarada como um objecto, uma coisa ao serviço da satisfação dos indivíduos do género masculino.

Mas não concordo com os que imputam esta realidade à religião muçulmana. A religião é aquilo que fazemos dela: afinal, não há qualquer prova de que, mesmo eventualmente fundada num encontro com a divindade, a sua evolução posterior seja superiormente orientada. Atribuir um fenómeno tão abrangente como o machismo a uma só religião é uma maneira muito fácil de lidar com a situação e de aproveitá-la para fins argumentativos contra as crenças alheias. Read the rest of this entry ?

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O amor é lindo

Março 16, 2009
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Não é da bebida*, é mesmo do Casino!

Fevereiro 18, 2009

Ainda me lembro de assistir, em criança, a uma comédia (e respectiva sequela) protagonizada por Whoopi Goldberg, em que uma artista de cabaré se via obrigada a refugiar-se numa instituição eclesiástica, ao ser perseguida por uns bandidos: “Do Cabaré para o Convento“. Os responsáveis católicos portugueses têm vindo a executar um movimento inverso (também com direito a sequela): desta vez, da paróquia para o Casino. Depois do Cardeal José Policarpo (e de um bispo qualquer), foi a vez do Cardeal Saraiva Martins participar numa tertúlia no Casino Figueira.

Saraiva Martins insiste no erro e volta a aconselhar cautela às jovens portuguesas antes de se casarem com muçulmanos. Eu não sei o que tem o Casino, mas que enlouquece (ainda mais) os nossos queridos sacerdotes, lá isso faz! Julgo que seja do cheiro da tentação: o cheiro do álcool dos copos dos clientes do bar; o cheiro das bailarinas que se costumam desnudar no meio daquele mesmo palco onde se realizam as clericais tertúlias; o cheiro do empolgamento sexual dos senhores que, da plateia, assistem às meninas; o cheiro dos adultérios que ali se cometem, entre os senhores empolgados e as senhoras desquitadas; o cheiro das máquinas que ali perto levam as pessoas à ganância; o cheiro das roletas que as levam à perdição; e o cheiro da liberdade. Enfim, o pecado total que os reprimidos padres têm a oportunidade de sentir (e desejar?) numa oportunidade única, que repetem à vez.

*Vide: O que é que ele bebeu?

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Mais uma lição para o Cardeal

Fevereiro 4, 2009

A Indonésia também é um país de maioria muçulmana…

The Religious Affairs Ministry said the divorce rate had jumped from an average of 20,000 a year to more than 200,000.

Since the introduction of democratic reforms 10 years ago, authoritarian attitudes are changing.

The BBC correspondent in Jakarta, Lucy Williamson, says it is mainly women who are driving this.

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Momentos Cardeais: Prólogo

Janeiro 31, 2009

Inicia-se, aqui, um espaço politicamente incorrecto, que pretende dar bons conselhos de uma forma estúpida e desacertada. Os fait-divers insólitos da actualidade passarão por aqui, sempre partindo do discurso original do Cardeal-Patriarca D. José Policarpo, com alguns arranjos ao tema em debate. Porque os melhores discursos e os momentos mais brilhantes da nossa sociedade merecem ser copiados, plagiados, usurados… enfim, tratados como merecem.

Para começar, nada melhor do que as palavras originais do próprio Cardeal:

Este é um conselho que eu dou às jovens portuguesas: cautela com os amores! Pensem duas vezes em casar com um muçulmano… Pensem, pensem muito seriamente. É meter-se num monte de sarilhos, nem Allah sabem onde é que acabam, hã. Se eu sei que uma jovem europeia de formação cristã – às vezes cristã assim assim -, se casa com um muçulmano, a primeira vez que vá ao país deles é sujeita ao regime das mulheres muçulmanas… Imagine-se lá! E só é possivel dialogar com quem quer dialogar, não? E, por exemplo, com os nossos irmãos muçulmanos o diálogo é muito difícil. Tão-se a dar os primeiros passos, não é? Mas é muito difícil porque eles não admitem sequer que… A verdade deles é a unica e é toda. E portanto, eles querem o diálogo.. Estão num país maioritariamente católico, e portanto é uma maneira de – como fazem os lobos na floresta! – de marcar os seus passos, não é? E de terem os passos que eu lhes respeito, não é? É uma primeira atitude fundamental, é o respeito e um conhecimento! Nós somos muito ignorantes! Nós queremos dialogar com muçulmanos, e ainda não gastámos uma hora da nossa vida a perceber o que é que eles são? Quem é que, em Portugal, já leu o Alcorão? E, no entanto, se nós queremos dialogar com muçulmanos, nós temos que saber o bê-a-ba da sua compreensão da vida, da sua fé… Portanto, a primeira coisa é conhecer melhor, respeitar.

Trascrição segundo o vídeo disponibilizado no Público online.

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Press Room: O que é que ele bebeu? (2)

Janeiro 14, 2009

Soube, há pouco, pela RTP-N que, na conferência de ontem à noite, D. José Policarpo se referiu também à pretensa curabilidade dos comportamentos homossexuais. Perante o ar incrédulo de Fátima Campos Ferreira, o já nosso herói afirmou que curou “vários casos” de amigos dele que eram homossexuais e que “hoje são óptimos pais de família“.

Isto faz-me lembrar aquele outro mal que muitos apontam a certos seres-humanos. Chamam-lhe raça negra, e também houve quem alegasse ter-se curado de tamanho mal. O resultado dessa obsessão foi a criação de um monstro denominado Michael Jackson. Mas é destas paranóias que se fazem algumas religiões. Perante as palavras de D. José Policarpo, também me veio à memória uma seita que clama curar a homossexualidade dos seus crentes. Ao defender que consegue tratar esse pecado, o Cardeal equiparou a sua Igreja à Cientologia.

De qualquer forma, se o Cardeal tem algum novo dado científico que aponte para a curabilidade da suposta “doença“, convinha que se dirigisse à comunidade especialista na matéria. Até tem muito por onde escolher: há psicólogos, psiquiatras e neurologistas. As reuniões deles ocorrem a todo o momento, nos pontos mais incríveis do planeta, numas coisas chamadas congressos científicos.

Caso contrário, eu continuo a crer que lhe meteram alguma coisa na bebida. Ou que os cigarros que o Cardeal adora fumar incluem umas quantas substâncias ilícitas.

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A bebida do Cardeal ainda não chegou a Israel.. Thank god!

Janeiro 14, 2009

Vi, há pouco, numa reportagem do Jornal Nacional (TVI), sobre o conflito entre Israel e o Hamas, um rabino defensor da intervenção militar dar uma lição de todo o tamanho ao Cardeal Patriarca de Lisboa. Questionado sobre o casamento inter-religioso, o líder espiritual de uma das cidades israelitas mais atacadas pelo Hamas nas últimas semanas disse que não se importaria que uma das suas crentes se casasse com um muçulmano, desde que ele reunisse o requisito de ter “um bom coração“.

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Press Room: O que é que ele bebeu?

Janeiro 14, 2009

Público (vale a pena ver o vídeo):

Falando na tertúlia “125 minutos com Fátima Campos Ferreira”, que decorreu no Casino da Figueira da Foz, José Policarpo deixou um conselho às portuguesas quanto a eventuais relações amorosas com muçulmanos, afirmando: “Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam.”

Eu concordo plenamente que o papel da mulher na maioria dos países islâmicos é absolutamente repugnante. Também concordo que a intolerância de parte da comunidade islâmica se torna difícil de gerir. E que não devemos ceder um milímetro nas nossas liberdades e valores por causa de exigências de fanáticos. Mas não posso discordar mais da generalização, como se os muçulmanos fossem todos um bando de “lobos“, à espera de caçarem as jovens e inocentes donzelas católicas e de pulverizarem a sociedade ocidental – como se as mulheres não fossem ou não devessem ser capazes de tomar uma escolha informada na altura de se casarem, e como se os grupos imigrantes não se tendessem a assimilar às sociedades de acolhimento ao longo do tempo. Não há casamentos inter-religiosos felizes? Não há jovens muçulmanos perfeitamente integrados (inclusivé, axiologicamente) nas comunidades de acolhimento?

O que o Cardeal fez foi usurpar dois debates relevantes - o da forma como devemos lidar com uma ameaça externa (os extremismos) e o do como devemos integrar os muçulmanos que vivem no nosso território -, num sublime conselho às jovens, que faz lembrar um daqueles discursos segregacionistas do século passado. Aproveitando-se do medo e do desconhecimento, José Policarpo deixou claramente subentendida uma ideia de proibição ou de estigma negativo sobre casamentos inter-religiosos, e isso é totalmente abominável.

É todo o discurso autoritário e impreciso da Igreja que se nota nas declarações do Cardeal. Não se trata de nenhum engano, nem de um momento infeliz: o que ele disse é o que ele efectivamente pensa e defende. A mediatização inesperada fez as autoridades eclesiásticas recuarem, mas não parece que esse recuo seja a sua verdadeira posição na matéria. A Igreja vê as pessoas como joguetes, que “pertencem” a cada um dos jogadores, e não podem mudar de lado. Se algum se desvia das regras do jogo, é um alvo a abater.

O aviso torna-se curioso vindo de quem vem, sobretudo tendo em conta as referências machistas na Bíblia, e quando, provavelmente devido a isso, a Igreja Católica continua a recusar-se ordenar mulheres e trata historicamente o género feminino de uma forma manifestamente sexista – paradigma actual disto será o véu que as esposas dos chefes de Estado têm de usar quando visitam o Papa. Para além disso, a Igreja não tem muita autoridade moral para falar em intolerância: ou não há padres a serem excomungados só porque não concordam da orientação centralizadora do Vaticano? Eu, como a creio ter, sinto-me totalmente liberto para criticar e atacar violentamente o que se passa de mal nos países e cultura islâmicos. E para elogiar os bons exemplos.

A generalização dos muçulmanos, enfiando-os a todos no mesmo saco, é muito interessante, e creio que tem muito a ver com wishful thinking: não interessa retratar nem felicitar os casos bem sucedidos de apaziguamento religioso por parte dos muçulmanos. No plano interno, alerta-se para os “sarilhos” de um casamento misto; na política externa, a Igreja Católica continua a ser dos mais ferozes opositores à adesão da Turquia na UE, depois de esta ter passado por um conjunto de alterações estruturais no Estado e na sociedade. Os muçulmanos não só são o inimigo, como interessa que eles sejam o inimigo.

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Liberalismo Religioso

Dezembro 16, 2008

Fui, como a maioria dos meus compatriotas, baptizado e crismado, com uma primeira comunhão pelo meio, mas não me sinto católico. A verdade é que, à semelhança de tantos outros portugueses, não escolhi a minha fé. Ela foi-me imposta à nascença, com uma cruz feita de água na minha testa, por um sacerdote de uma dada orientação religiosa, quando nem sabia o que isso significava. A crença católica foi-me imposta, por todos, desde os meus pais, à professora da escola primária, passando pelos homens bons da terra. E, no entanto, não se pode dizer que eu seja um católico. Ouvi um padre dizer que, uma vez católico, católico para sempre. Como acredito na liberdade religiosa (e a liberdade implica o direito de mudar), sei que aquilo em que nos tornamos é que define quem somos.

Também não sou ateu. Penso que o ateísmo acaba por ser uma atitude de certa forma primária, uma espécie de fenómeno semelhante à revolta do filho contra os pais, a dada altura, e que lhe permite atingir a maturidade. A nossa civilização vive uma certa adolescência, na descoberta da sexualidade (após os anos de “infância” em que isso era tabu), nos abusos (de substâncias nocivas, de produtos e bens), na luta por ideais muitas vezes inalcansáveis (sejam ideologias, sejam princípios de direito das nações civilizadas), mas também nos momentos de súbita sabedoria, na inteligência enérgica, na vontade de fazer. Por isso, é natural que a ideia de uma divindade seja alvo da irreverência, o que muitas vezes também se ficará a dever a um ataque contra, não a própria ideia de Deus, mas as instituições que a defendem, e que constituem o status quo.

Acredito numa força superior que nos ultrapassa, que está acima de nós e nos guia, que quer o nosso bem. Tenho fé em Deus, mas não estou disposto a submeter a minha fé à doutrina de quem quer que seja. Não admito nenhuma interpretação que me imponha o que é ou como deve ser exercida a fé. A Igreja não tem o monopólio da fé. As Igrejas são instituições religiosas, e bem podem promovê-la. Mas não são donas dela. Além do mais, a fé que elas promovem é uma fé, que não a fé. A fé vem de cada um de nós, independentemente de seguirmos o juízo que dela faça qualquer instituição. Quando concordamos, filiamo-nos. Caso contrário, não existe um problema, mas uma mera inexistência de laços, que não podem ser mantidos a título precário numa sociedade em que cada indivíduo tenha liberdade de consciência.

Mas isto significa mais: a fé não emana de nenhuma instituição. Podemos ter fé e não participar em nenhum culto, assim como podemos participar em todos os cultos do mundo, e não ter fé alguma. Podemos ascender na hierarquia eclesiástica até ao topo dos topos, sem ter fé (não me venham com aquela de o Espírito Santo entrar pelos cardeais adentro na Capela Sistina). Porque a Igreja (Católica ou outra) é uma coisa de homens, entre homens, e não de Deus, embora o tenha por objecto. E a fé é uma coisa de nós com Deus, e não com homens. O que distingue os homens de fé dos homens sem fé não é um vínculo institucional entre humanos; é o laço que os une a Deus. Por mais que a Igreja tente ser esse laço, a verdade é que o não é, nem nunca será.