Através de um tweet, cheguei a este post no blog de apoio ao PS, Simplex. Sofia Loureiro dos Santos parte de uma notícia que viu no Público, mais ou menos desfavorável ao seu partido, para atacar o jornal, insinuando que manipulou a informação, de modo a atacar o PS:
O Público não olha a meios para atingir os fins. Como órgão de informação, o jornal Público socorre-se de todas as artimanhas para confundir e fazer campanha contra o governo e o PS.
O problema é que eu já tinha visto uma notícia, por acaso idêntica, no JN, um jornal que pertence a um grupo “amigo” do PS. A notícia, como reconheceu o @lmferreira2, provavelmente vem da Lusa, e ambos os jornais limitaram-se a reproduzi-la.
A blogger continua, depois de disparar com artigos de leis, dizendo
Ou seja, o facto do cartão de eleitor nos colocar automaticamente na nossa freguesia de residência, poupando-nos a preocupação de a alterarmos quando mudamos de casa, é uma forma de reduzir a abstenção e não de a aumentar. Mas, mesmo que por isso não fosse, o cartão de eleitor apenas cumpre o que está na lei.
Se as pessoas que nasceram numa freguesia querem continuar a ter ligações com ela, não me parece que seja através do acto eleitoral.
Mas, ao contrário do que faz aparentar Loureiro dos Santos, a notícia não se limita a dizer que o recenseamento automático na residência vai aumentar a abstenção. Depois de apresentar a posição de duas pessoas afectadas pela medida, que dizem isso, a peça cita alguém com um pensamento contrário:
Já para o sociólogo André Freire, “faz mais sentido que as pessoas votem no local de residência”, pois “quando há ligação com a terra, há sempre e não é o facto de votar sempre lá que aumenta a relação afectiva”.
O investigador do ISCTE considera esta medida “muito positiva” pois “pode aumentar a participação dos cidadãos”.
Ou seja, na sua ânsia de atacar o Público, Sofia Loureiro dos Santos esqueceu os três últimos parágrafos da notícia, inteiramente dedicados a fazer ver o ponto de vista que ela defende.
Este recenseamento traz mudanças para a vida eleitoral de muitas pessoas – facto. Este recenseamento retira a possibilidade que muitos tinham de votar na sua terra de origem- facto. Isso é bom ou é mau? Não sei. A Sofia Loureiro dos Santos acha que é bom. Os visados acham que é mau. O jornalista que fez a notícia deu ambas as conclusões. A Sofia Loureiro dos Santos não gostou disso. E um monte de gente foi na onda.
O máximo que esta blogger poderia dizer é que não gostou do título da notícia, “Cartão do cidadão vai afastar milhares do concelho onde querem votar”, por lhe parecer distorcido. Distorcido, e não manipulado, porque não mente em nenhum aspecto: milhares de pessoas gostariam de continuar a votar no concelho onde até agora votaram, e o cartão do cidadão vai impedi-los de o fazerem. E, logo no primeiro parágrafo, qualquer dúvida fica esclarecida:
Milhares de eleitores portadores do Cartão do Cidadão vão votar obrigatoriamente pela primeira vez nas autárquicas no local da sua residência, perdendo o direito de votar no concelho onde nasceram e mantinham laços afectivos com o poder local.
Se a Sofia Loureiro dos Santos quer mostrar que tem razão em dizer que o Público faz “campanha contra o PS”, aconselho-a a escolher uma notícia em que isso aconteça, e não qualquer uma que lhe apareça à frente, só por ser negativa. Caso contrário, dá razões à conclusão de que é ela, afinal, quem não vê meios para atingir os seus fins.