Arquivos para a Categoria ‘Debate ideológico’

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Jovens e Política: em nome de uma indiferença compreensiva

Agosto 18, 2009

A mandatária legislativa do PS tem sido muito atacada ultimamente. O facto de Carolina Patrocínio ser uma escolha light já não caía bem nalguns sectores, e foi aproveitado por outros para atacar Sócrates. A gota de água está numas declarações em que ela terá dito que só comia cerejas quando a empregada tinha previamente tirado as sementes respectivas, por lhe ser incómodo fazê-lo.

Não tenho nada contra a Carolina Patrocínio, que deve captar audiências suficientes para ter um salário que pague a empregada, que deve ficar bem contente em receber a mesada por desencaroçar as cerejas – apesar  de isso demonstrar alguma imaturidade, talvez. A empregada até pode fazer isso de bom grado, feliz por ajudar a sua “menina“. O que me parece significativo é ter sido escolhida como mandatária do PS. Por um simples facto: representa a imagem light, simples mas idílica na inocência política, e inferior que se insiste passar dos jovens.

Isto parte, obviamente, de um preconceito que subsiste na política (preconceito sublimado pelas jotas, que funcionam como o “PS/PSD dos pequeninos“), mas é possível que encontre feedback em muitos jovens, que se sintam representados dessa forma, numa espécie de realidade semelhante àquela que dá primazia social ao pior aluno. Talvez se sentissem intimidados caso a mandatária de Sócrates fosse uma brilhante cientista premiada internacionalmente. Por outro lado, também é natural que os mandatários sejam pessoas conhecidas, mas não parece tão certo que possam ser “político-excluídos”. Read the rest of this entry ?

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Aproveitar a oportunidade

Julho 29, 2009

Não basta vir um porta-voz contrariar o estudo. É necessário que o PSD tenha a honestidade e a efectiva Política de Verdade de reconhecer o desnorte do seu passado, para que o possa superar. Não vale fugir, enterrar a cabeça na areia ou, pior, fingir que não é com ele. O PSD tem de assumir as suas responsabilidades no Estado do estado. A direcção actual deve assumi-las mesmo que não sejam da sua responsabilidade. Só assim pode exigir ao PS que faça o mesmo. Só assim pode exigir aos portugueses, e a mim, que a apoiem. Porque não acredito na regeneração do errante que não admite ter errado.

Esta é a oportunidade de Manuela Ferreira Leite fazer um discurso estruturante sobre a economia e as finanças públicas. É a oportunidade para mostrar o que vale,  para contar a sua história e a história deste país, apresentar a sua visão,corrigir o que tem sido dito e deixar o PS, este PS, entregue à sua argumentação m esquinha e à sua política medíocre, criando um fosso insustentável. Esta é a oportunidade de Ferreira Leite conquistar as pessoas da maneira certa (e não da maneira errada a que estão habituadas) e iniciar verdadeiramente um novo ciclo. É a oportunidade, em suma, de converter uma notícia negativa e uns ataques menores numa demonstração de carácter.

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Algo sobre Socialismo

Julho 26, 2009

Estou a ler o mais recente livro de Eduardo Lourenço, A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História? (Gradiva, 2009). Na sequência das eleições presidenciais de 1985, Lourenço escrevia um artigo que termina assim:

Não faltam sucessores no Partido Socialista. Haverá até demais como no PSD antes de Cavaco Silva [e depois..] De resto, o PS não precisa de um «sucessor» para Mário Soares. Seria um duplo e inane pleonasmo. Como Mário Soares iniciou um novo ciclo presidencial, o PS, obrigatoriamente adulto pela sua ausência [?!], precisa de um líder novo, na idade e, sobretudo, no perfil. A uma época romântica e épica seria bom que sucedesse uma outra performance, toda voltada para o século próximo e não para aquele donde vem, época encarnada em alguém que tenha a mais da competência que a Direita se outorga, o sonho e a vontade de solidariedade que são a única razão de ser da Esquerda.

Para lá da constante confusão do autor entre ideologia política e carácter pessoal, ele enganava-se em supor que Soares se evaporaria do PS, para se assumir como “pai da pátria”. Soares seria um dos coveiros de Cavaco, entregando, feliz e contente, o poder de volta ao PS. E só Sócrates viria, de certa forma, encarnar a figura desejada: se, é claro, se considerar que a profusão de medidas é sinónimo de competência, que um plano tecnológico significa voltar-se para o século próximo, e que uma crise é suficiente para justificar uma formação ideológica oportunista, onde antes havia praticamente o vazio e o remendo.

Todos os artigos que tenho lido de Lourenço são, de resto, assim. Começam com uma análise pertinente, e acabam com propostas muitas vezes em desacordo com ela. Quando fala na crise da Esquerda, pretende que ela se modernize, mas as soluções são as mesmas fórmulas do passado. E a referência à ética de Esquerda como única ética possível não pode deixar de ser vista como reflexo de alguém que nasceu, e viveu grande parte da sua vida, numa realidade em que ser de Direita era sinónimo de suportar uma ditadura. Só assim se entende o desprezo que revela e a desvalorização, quer da evolução das Direitas, quer dos maus exemplos das Esquerdas. Porque ser de Esquerda é bom e ser de Direita é mau, ponto final.

Mas vale a pena ler. Revela-nos o melhor pensamento ortodoxo do Socialismo. De resto, somos todos crianças face à estrutura de Lourenço, enquanto o seu mérito me parece muitas vezes infantil. De qualquer forma, seja qual for o juízo que se faça, e as conclusões que se tirem, é enriquecedor e coloca problemas dignos de reflexão. Fica, no entanto, a ressalva de não ter terminado de ler o livro, com tudo o que isso implica.

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Flor de Estufa

Julho 14, 2009

Vasco Pulido Valente sobre Marcello Caetano:

Disse em 1973 a António Alçada Baptista que não tinha uma «concepção pedagógica do governo». Tinha: mas queria dizer que, para ele, a função da autoridade não era «impor às pessoas o que achava que elas deviam fazer». Pouco a pouco, porém, abandonou esta neutralidade céptica. Ele não se importaria de ser «largamente permissivo»num mundo pacífico, regido pelas regras do debate universitário, e não por gente que, a título de argumentos, «regougava» as asneiras do «velho arsenal das utopias» e do «bricabraque dos sistemas». Mas, no mundo em insurreição que lhe coubera em sorte governar, num mundo de fanáticos e de «frenéticos», em que todos aqueles que deviam o «mínimo de obediência» estavam em guerra com todos aqueles que tinham «o mínimo de autoridade», «os filhos contra os pais, as mulheres contra os homens, os alunos contra os professores, os empregados contra os patrões e os governantes contra os governados», competia-lhe não confiar nos «automatismos sociais» e manter a autoridade sem desfalecimento.

Manter a autoridade para reprimir, quando fosse necessário. Mas, fundamentalmente, para defender a «posição do centro» e dela «a cada passo fazer apelo à razão». A democracia era a morte da razão, e ele o «paladino do equilíbrio». Não se resignava (nunca se resignou) a abolir a razão, mesmo à custa da liberdade, convicto de que, limitando-a, não a matava. De que, pelo contrário, a defendia. À mercê das violências do «instinto», a liberdade, essa «flor de estufa», precisava de um poder interveniente e prescritivo para sobreviver. Ele, pelo menos, não a trairia.

Portugal: Ensaios de História e de Política, págs. 226-227.

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Europeias: Notas sobre os resultados (I)

Junho 8, 2009

1. A primeira ilação deve ser tirada no contexto europeu. O PPE venceu, pela terceira vez consecutiva, as eleições, o que significa uma derrota clara das teses anti-liberais que pronunciavam o fim do capitalismo. Durante mais de meio ano, o Ocidente enfrentou uma ditadura do consenso entre opinion makers (entre os quais o Vaticano, que resolveu uma vez mais sair dos assuntos de espírito, para se preocupar com essas coisas carnais), afirmando que a única forma de resolver a crise seria desmantelar o mercado. É muito significativo, por isso, que se tenham alcançado esses resultados, logo no espaço geo-político onde há maior intervencionismo do Estado - a Europa. Durão Barroso é a personificação desta vitória, continuando a ser a “cabeça” da segunda maior democracia do mundo. Começa aqui o segundo round de mais um confronto entre socialistas e liberais, proteccionistas e “globalizadores”, enfim Estado e mercado.

2. Por outro lado, tenho de deixar uma palavra de desagrado com a ascensão dos partidos xenófobos: o que representa, sem dúvida, a irracionalidade de um certo eleitorado que, à boa maneira medieval/tribal, continua a culpar os estrangeiros pelas “doenças, fomes e guerras“. Independentemente das divergências de concepção do Estado e da sociedade que tenho com a esquerda democrática, sei que dela não vem este tipo de desumanidade. Sem dúvida que, tendo de escolher entre um PS ou um PNR, optaria pelo primeiro – é uma questão de princípio, mais do que de ideologia. Não defendo a ilegalização destes partidos, porque isso não é solução (a ser assim, também teríamos de ilegalizar comunistas e anarquistas). A melhor forma de lidar com eles é demonstrando que não têm chance numa sociedade avançada que aprendeu a lição com as experiências nazi e fascistas. Infelizmente, não foi isso que aconteceu desta vez.

3. Uma possibilidade que não gostaria que fosse real seria os europeus terem votado contra a Europa – i. é, contra o federalismo. Não haja dúvidas de que “a União faz a força“. Os exemplos são claros, mesmo no quotidiano. Por isso, num contexto global cada vez mais competitivo e ainda politicamente difícil, a pulverização dos centros de decisão internacionais dos europeus (diplomacia, defesa) apenas contribui para a decadência dos seus povos. Mas é apenas uma hipótese, uma hipótese em que, por ser inconclusiva e não comprovável, prefiro não acreditar.

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Blog Room: Boa ideia

Junho 4, 2009

TAF vota em branco. Entretanto, põe uma questão pertinente, e fantasia uma ideia que nem é assim tão descabida:

Compreende-se a abstenção como reflexo da indignação generalizada. Mas é combater um mal com outro mal: como se distingue o cidadão indignado do cidadão desleixado? A “abstenção responsável” é o voto em branco, pois inequivocamente mostra descontentamento. Há uma sugestão excelente mas nunca aproveitada: a abstenção e os votos em branco deveriam “eleger deputados”. Por exemplo, 40% de abstenção significaria 40% de cadeiras vazias no Parlamento. Eis uma maneira simples de criar nos deputados forte interesse na participação política dos cidadãos! Aposto que com esta nova regra os próximos tratados seriam milagrosamente fáceis de entender, as leis mais bem preparadas, a prestação de contas bem cuidada.

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Eu também voto

Maio 30, 2009

Num post intitulado “Eu voto” (a que cheguei por aqui), Bernardo Pires de Lima chama os abstencionistas de “gente irresponsável”, que não votam incentivados por uns “ingratos de merda” – pessoas com “responsabilidade pública”, a.k.a. comentadores que apelam à abstenção. Para justificar os epítetos, Pires de Lima apela à “conquista” de Abril. Aqui fica o post:

Há gente irresponsável que opta por não votar. É coerente. Há gente com responsabilidade pública que não só não vota, como apela à abstenção. Estas pessoas, entre eles alguns opinadores, desprezam o voto. Têm-lhe uma raiva incontida, dão-lhe um significado diminuto. São, por outras palavras, uns ingratos de merda.

Poucos portugueses lutaram para que muitos pudessem votar um dia. O mínimo que estes milhões poderiam fazer era honrar essa conquista. Infelizmente não o fazem. Depois não se queixem.

A abstenção é um meio para se medir a temperatura da relação entre o poder político e os cidadãos. Acabar com ela é criar uma temperatura artificial, sem correspondência com a verdade: é uma artimanha. Bem sei que o autor não está a defender isso, mas faz o argumento que os que pretendem instituir o voto obrigatório usam. De qualquer forma, não ir votar não é nenhuma imoralidade digna dos insultos de Bernardo Pires de Lima.

É moral não ir votar, pelo menos tão moral quanto ir votar. Se não, pergunto: e quem vota, guiado por mensagens políticas enganosas, por promessas de tachos ou uns 5 euros, ou por um amigo que “é lá da política”, e que traz uma camioneta para carregar os amigos, pedir? No fim de contas, não seremos nós, os votantes, os “irresponsáveis” e os políticos “os ingratos de merda”? É essa realidade mais moral, mais correcta ou menos “merda” do que a de quem não vai votar? Entenda-se: não estou a dizer que ir votar seja menos bom do que não ir votar.

Mas “honrar essa conquista” de Abril não passa também pela liberdade de não votar? Deve uma pessoa que não acredita em nenhum partido, que não confia em nenhum líder, que não quer votar em nenhuma das alternativas, ainda assim dirigir-se à urna de voto? Faz “totoloto” para escolher? Exigir (mesmo que apenas moralmente) que uma pessoa vote em alguém quando não o quer fazer não passa de uma forma de ditadura em democracia. Não há problema em apelar-se à participação eleitoral. Mas ninguém deve ser desmerecido por não legitimar o arco-íris político conjuntural, ou por não “honrar” os combatentes da liberdade. Até porque quem se abstém pode estar a queixar-se. E, nesse sentido, a insurgência que representa a abstenção deve ser tão respeitada quanto o voto.

Eu também voto, Bernardo Pires de Lima. Só não acho que isso me dê qualquer tipo de vantagem moral sobre quem escolhe não votar. Porque, afinal de contas, não falar também é uma forma de dizer alguma coisa.

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A História não tem fim

Maio 8, 2009

Até hoje, desconhecia o paradoxo de Arrow. Este post de Luís Aguiar-Conraria, a que cheguei através do Margens de Erro, fez-me diminuir a ignorância:

Não há sistemas de votação perfeitos. Mais do que uma impossibilidade prática, John Kenneth Arrow, prémio Nobel da Economia em 1972, demonstrou que é uma impossibilidade matemática. O teorema da impossibilidade de Arrow diz-nos que nenhum sistema de votação democrático consegue satisfazer três requisitos básicos: (1) havendo unanimidade em torno de uma opção, então essa opção deve ser escolhida; (2) a comparação entre duas alternativas não ser influenciada pela presença de alternativas irrelevantes e (3) transitividade das escolhas.

Na verdade, o teorema de Arrow apenas se aplica quando existem mais do que duas escolhas. É o caso de as eleições parlamentares em que há vários partidos em disputa e um sem-número de assuntos aguardando resolução: impostos, TGV, política externa, etc. Assim, e por mais voltas que se dê, quer se prefira um sistema de eleição a uma volta, a duas voltas, com círculos uninominais ou nacionais, a verdade é que não se encontrará nunca um sistema de votação que permita revelar de forma fidedigna as preferências do eleitorado.

Há uma excepção à regra acima referida: o referendo. (…)

LA-C fala no referendo como um redutor deste problema, e da necessidade de o facilitar. Mas o paradoxo de Arrow vem assentar bem no meu próprio ideário.

A implosão do separação linear direita-esquerda (que tornava os partidos em pacotes rígidos de propostas) e a “fuga” dos políticos através do consenso fez-me chegar à concluir de que o sistema político não é apenas imperfeito; deve ser seriamente repensado, de forma ponderada e sem pressas (tarefa dos filósofos políticos), com o objectivo de o modificar. A democracia, enquanto produto das revoluções francesas, e aperfeiçoada nos dois séculos seguintes, não pode ser encarada como o fim da História política.

Entretanto, houve quem questionasse estas minhas ideias, desafiando-me a apresentar que caminho, então, deveria ser seguido. Estou longe de ter os conhecimentos necessários à tarefa de encontrar soluções (é mais fácil comentar decisões do que tomá-las). Mesmo assim, pensei num pequeno contributo. Partindo daquela ideia de arbitrariedade dos políticos (uma vez chegados ao poder), conjugada com o fim da lineariedade de convicções (as pessoas têm cada vez mais ideologias “à la carte”) e de propostas (os partidos mudam os seus programas conforme as suas lideranças – apesar do bloqueio naturalmente criado pelas bases, que impede uma mudança brusca), construí uma reforma genérica possível, assente em dois pontos. Read the rest of this entry ?

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O dia em que Vital apanhou Ta-Tau (2) – Cenários

Maio 3, 2009

As consequências do episódio de Sexta-feira podem ser várias:

1. As pessoas solidarizam-se com o ofendido. Os eleitores de esquerda ganham desconfiança face ao PCP (e ao BE), tendendo a confiar mais nos que estão lá. Vital Moreira aparece como uma vítima do extremismo.

2. As pessoas solidarizam-se com os ofensores. Foi nisto que apostaram os dirigentes da CGTP, ao invocarem o sofrimento dos trabalhadores como causa para este desabafo físico. Vital Moreira é visto como um oportunista vendido, e o PS como o partido que se opõe às pessoas. O que se passou foi “justiça do povo” enquanto voz de Deus.

3. Criou-se um trunfo para o PS. Mesmo que a candidatura europeia fique manchada, o PS afirma-se como o único “partido da esquerda democrática”, conseguindo factos que atestam esse slogan propagandeado no último Congresso socialista. Sócrates ganha fôlego para se dirigir ao eleitorado de centro.

4. Estes episódios vão começar a multiplicar-se. O episódio do 1.º de Maio dá coragem a todos os que se sentem revoltados com o Governo e, aos poucos, vão-se gerando mais situações similares, até atingir proporções gigantescas. O caso de Sábado, em Melgaço (Sócrates e Moreira foram vaiados por populares que se presumem ser sindicalistas), vem reforçar esta hipótese. Mas só se as demonstrações populares de insatisfação saírem de nichos restritos para a main street é que Sócrates terá razões muito sérias de preocupação.

5. João Miranda falava em transferência de votos para PSD e CDS. As pessoas, quando se sentem inseguras, tendem a votar nos partidos de direita. Para além disso, ao se envolverem num conflito, os partidos de esquerda podem ter criado aversão no eleitorado, face a ambos, vistos como promotores da instabilidade (pensamentos como: “são iguais”, “não se entendem”, “só querem tachos”).

Estas possibilidades não se excluem mutuamente, e podem verificar-se todas, devido à existência de diferentes tipos de eleitores. Mas algumas poderão sobressair.

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O dia em que Vital apanhou Ta-Tau

Maio 2, 2009

Era para ser mais uma tarde tuiteira normal. Nada fazia prever mais do que os habituais comentários e análises sobre o 1.º de Maio e as críticas da oposição, quando um tweet da Alberta Marques Fernandes anunciou que Vital Moreira (PS) tinha sido agredido numa manifestação da CGTP. Depois de ter cumprimentado Carvalho da Silva, o euro-candidato do PS teve de fugir de uma multidão em fúria, que gritava palavras de ordem como “traidor”, “vendido”, “comunista de m*rda” ou o antigo “f-d-p”. Sob um banho de cuspe, Vital terá sofrido palmadas, murros, pontapés, objectos atirados (vi uma bandeira a voar directamente para as costas dele) e dejectos animais.

Admito que passei a tarde a rir-me da triste situação. E a verdade é que se tratou de algo injusto: há pessoas que mereciam bem mais este tratamento. Mas Vital manteve tudo no sítio: cabelo, bigode, sorriso e a voz tranquila e oscilante de sempre, com picos de atrevimento.

Um dirigente sindical da CGTP pediu de imediato desculpas, atribuindo as culpas ao desespero sentido pelos trabalhadores perante o triunfo do neoliberalismo. Era o ensaio para o que se seguiria: o Secretário-Geral da Central Sindical lamentou, mas não pediu desculpa (veio a fazê-lo mais tarde, pressionado pelos jornalistas); mas colocou a tónica na questão do sofrimento do proletariado. O PCP, por entre insinuações de que os seus militantes não tinham nada a ver com aquilo, culpou o PS e Vital, e também se recusou a pedir desculpas.

Muitas pessoas ficaram revoltadas com esta reacção do sindicato e do partido. No entanto, se atentarmos às suas especificidades, não se podia esperar outra coisa. É que, desde logo, a ideologia comunista defende a tomada do poder pela força. O Comunismo legitima acções violentas por parte do proletariado oprimido contra o seu opressor; a revolução sangrenta é, aliás, a única forma vista como possível para derrubar a exploração do homem pelo homem. Por outro lado, temo que uma maioria quase unânime das bases dessas organizações tenha apoiado esta acção espontânea, o que faria com que um pedido de desculpas por parte dos dirigentes os tornasse no alvo de todas as críticas internas – e não se esqueça que o PCP é o partido mais “virado para dentro” do nosso sistema político.

Parece ter sido um erro táctico. Mas foi a reacção natural.