A propósito do post anterior, vale mesmo a pena ler este artigo da Reuters.
Arquivos para a Categoria ‘China’

NuKorea
Maio 25, 2009Foi assim que uma noite tranquila em Portugal se tornou num inferno vermelho: a Coreia do Norte confirmou a realização de testes nucleares no seu subsolo, após a Coreia do Sul ter detectado um tremor de terra artificial. A situação despoletou o alerta militar nos países da região, mas não é novidade. Em Outubro de 2006, o estado comunista já tinha realizado um primeiro teste nuclear.
Tudo isto vem no seguimento de uma décade de avanços e recuos, num jogo do gato e do rato que o Estado pária tem feito com a comunidade internacional. A opção nuclear é um espectro que Pyongyang tem aproveitado como instrumento para obter benefícios externos e a legitimação interna do regime. Os EUA chegaram a aceitar construir centrais nucleares eléctricas no país, em troca do fim do programa nuclear com fins militares, o que foi inicialmente aceite. Mas a verdade é que os acordos firmados foram sendo sucessivamente descartados ou violados pelos responsáveis coreanos. O resultado é que, hoje, a Coreia do Norte está mais perto de ter armas nucleares do que nunca.
É certo que o país está a anos de conseguir elaborar armas e mísseis verdadeiramente ameaçadores. Só que a situação não deixa de ser muito preocupante. A possibilidade de um Estado instável e tirânico ter um arsenal nuclear é muito perigosa. Mas, para além disso, o regime sempre constituiu uma ameaça à ordem internacional e, provavelmente a única forma de resolver o problema seria reunificar as duas Coreias. Essa hipótese ficará minada no momento em que a Coreia do Norte tiver armas nucleares. Read the rest of this entry ?

Press Room: A China para lá dos Jogos
Agosto 21, 2008Exército chinês “disparou sobre a multidão” no leste do Tibete, SIC:
Ao jornalista que lhe perguntava se a “repressão tinha continuado no Tibete apesar da trégua olímpica”, o Dalai Lama respondeu que “o exército chinês ainda disparou sobre a multidão, segunda-feira 18 de Agosto, na região de Kham, no leste do Tibete”.
“Cento e quarenta tibetanos terão sido mortos, mas este número precisa de ser confirmado”, declarou o chefe espiritual tibetano, numa visita a França.
“Após os motins de Março e os Jogos Olímpicos acreditamos em sinais positivos. Rapidamente nos desencantamos. Os nossos emissários chocaram contra um muro”, disse.
A confirmar-se este facto, fica comprovado que é impossível confiar na melhoria dos direitos humanos e do exercício das liberdades cívicas naquele país, a curto e médio prazo. Dificilmente Axel Rose verá, em vida, a democracia na China.

Press Room: Skinned alive
Agosto 19, 2008Para lá dos Jogos, o terror chinês estende-se também aos animais:
When undercover investigators made their way onto Chinese fur farms recently, they found that many animals are still alive and struggling desperately when workers flip them onto their backs or hang them up by their legs or tails to skin them. When workers on these farms begin to cut the skin and fur from an animal’s leg, the free limbs kick and writhe. Workers stomp on the necks and heads of animals who struggle too hard to allow a clean cut. When the fur is finally peeled off over the animals’ heads, their naked, bloody bodies are thrown onto a pile of those who have gone before them. Some are still alive, breathing in ragged gasps and blinking slowly. Some of the animals’ hearts are still beating five to 10 minutes after they are skinned.
[...]
Undercover investigators from Swiss Animal Protection/EAST International recently toured fur farms in China’s Hebei Province, and it quickly became clear why outsiders are banned from visiting. There are no regulations governing fur farms in China—farmers can house and slaughter animals however they see fit—meaning miserable lives and excruciating deaths. The investigators found horrors beyond their worst imaginings and concluded, “Conditions on Chinese fur farms make a mockery of the most elementary animal welfare standards. In their lives and their unspeakable deaths, these animals have been denied even the simplest acts of kindness.”
[...]
Mother animals, who are driven crazy from rough handling and intense confinement and have nowhere to hide while giving birth, often kill their babies after delivering litters. Disease and injuries are widespread, and animals suffering from anxiety-induced psychosis chew on their own limbs and throw themselves repeatedly against the cage bars.

Blog Room: Arquitectura, Presidente e Casamento
Agosto 12, 2008Eduardo Pitta, sobre a qualidade da arquitectura portuguesa, no Da Literatura (11/8/08):
Os jornais deviam aproveitar a oportunidade para levar a Pequim jornalistas especializados, acompanhados (ou não) de arquitectos, e fazer reportagens sobre o tema. A nova Pequim vale bem o investimento. Sempre ajudava a racionalizar os entusiasmos ditirâmbicos com o que por cá vai sendo apresentado como grande arquitectura.
Maria João Marques, sobre a comunicação presidencial, no Farmácia Central (7/8/08):
O Presidente da República esteve muito bem em tratar com a gravidade que se impunha a limitação dos seus poderes que decorreria deste “disparate açoreano”. Se as pessoas não gostaram e a comunicação social amuou porque não houve frisson suficiente, só me resta dizer-lhes que uns e outros têm o país que merecem, que não pára de falar da ideia de Manuela Ferreira Leite do casamento – a história da procriação – e não se interessa por tentativas de limites impostos aos poderes que actualmente fogem ao PS.
Manuel Fonseca, num bizarro artigo sobre o casamento, no Geração de 60 (11/8/08):
Por mais apaixonados que estejam, sugiro-vos que vejam o mundo com o mesmo véu negro que Kafka, tendo em conta o episódio que se segue, deve ter colocado em frente aos seus desorbitados olhos. Apaixonado por Felice, que só vira uma vez em Berlim e a quem mandava 50 cartas por mês, Kafka acabou a escrever-lhe um insólito pedido de casamento: “Casa-te comigo e vais arrepender-te. Não te cases comigo e vais arrepender-te. Casa-te comigo e não te cases comigo, em ambos os casos arrepender-te-ás.” Felice resolveu o dilema buscando amparo em braços mais consoladores. Kafka vingou-se com o labiríntico e tormentoso “O Processo”.

VIII – A guerra na Ossétia do Sul ou o duelo Eixo Atlântico vs Império Russo
Agosto 10, 2008A Geórgia invadiu uma sua província independentista chamada Ossétia do Sul, para restaurar a ‘unidade nacional’. A Federação Russa respondeu com uma intervenção militar de ‘libertação’ de um povo que pretende a autodeterminação. Mais uma confusão lá nos confins da Eurásia. O que é que isto mostra?
Mostra, em primeiro lugar, que há um grande erro por aí. As pessoas têm tratado o caso com circunstancialismo, circunscrevendo-se aos acontecimentos desta pequena guerra, e daí tirando as suas ilações.
Na verdade, não é preciso olhar muito longe para verificar a existência duma cadeia de acontecimentos. Voltando um pouco mais atrás, a minha história começa com o desmoronamento da URSS. Enfim, o triunfo de um Mundo sem impérios ou blocos, em que os Estados-Nação voltariam a reinar, num espírito de cooperação e de aliança entre quase todos, exceptuando uns pontos negros que eventualmente surgissem. Caso paradigmático é a invasão do Iraque por uma coligação internacional em 1991, após ter sido invadido um soberano Estado-nação. É ainda com base nesse esquema intelectual que GWB elenca o eixo do mal: um conjunto de países distantes e pouco conhecidos, marginais – as ovelhas negras de um rebanho tendencialmente bondoso.
Mas, desde cedo, essa concepção começa a ser posta em causa, quando a Rússia, então liderada por Gorbatchev, ameaça com o seu arsenal nuclear, após uns episódios durante a intervenção da NATO nos Balcãs (até aí, zona de influência russa). No entanto, essa demonstração de força foi interpretada mais como um último rugido do velho leão do que como o primeiro grito de uma Fénix prestes a eclodir.
A China, marginalizada pelo Ocidente depois da chacina de Tiananmen e com uma população pobre e em excesso, era vista como um caldeirão de problemas políticos emergentes da intolerância étnica e das reformas iniciadas por Deng Xiaoping.
Toda esta percepção começa a mudar logo após a guerra do Golfo. E começa aqui, com o Tratado de Maastricht, de 1992/3; nasce a União Europeia, primeira instituição europeia contemporânea verdadeiramente política. O sonho europeu começa finalmente a concretizar-se: cidadania europeia, PESC, CoPoJuP – funções de soberania começam subtilmente a entrar no léxico do Direito Comunitário, até aí eminentemente económico. Surge uma potência, diminuida do ponto de vista político e inexistente no prisma militar, mas ainda assim uma potência, a maior em termos económicos, e a segunda maior democracia do Mundo (com o reforço das competências do Parlamento Europeu).
Acaba o século e acaba a transição russa para a Oligarquia. O Primeiro-Ministro Vladimir Putin substitui Boris Ieltsin, o combatente anti-URSS, e inicia o processo de reformas musculadas que vão culminar na centralização do poder e no exercício de uma política externa dura e imperialista.
A China sofre um boom económico, com a crescente abertura da sua economia ao capitalismo e com o esforço de toda a máquina do poder absoluto centrado no crescimento económico (a qualquer custo).
Se, para norte, migram as indústrias pesadas e baratas, para a Índia começam a rumar as empresas tecnológicas e de prestação de serviços, em busca da mão-de-obra altamente qualificada e a bom preço. E nem os temores iniciais, relacionados com a crise social e com as catástrofes naturais, impedem este processo.
No Atlântico sul, um gigante adormecido começa a emergir, após as décadas de empobrecimento do fim da ditadura militar e das convulsões do início da democracia. Embora surjam cada vez mais pobres, a criminalidade catapulte e a corrupção se alastre, o Brasil de Fernando Henrique Cardoso cria uma nova e bem sucedida moeda que traz de volta a estabilidade há muito perdida, mas incapaz de conter a inflação. Um misto de liberalismo com um Estado incompreensivelmente grande, com elevados impostos, dificultam o objectivo, mas a República lusófona melhora o clima social com o populista Lula da Silva.
Voltando aos confins da Europa, o início do século marca uma ofensiva da União contra o inexistente Pacto de Varsóvia, conseguindo o que, pouco mais de uma década antes, seria visto como impossível: a UE toma de assalto mais de uma dezena de satélites da velha URSS, isto sem fazer tombar uma gota de sangue.
A ofensiva prossegue, e entre a coligação supranacional e o império oligarca começa uma guerra de bastidores e de financiamentos aos restantes países do leste europeu, culminando na maior vitória europeia: a revolução laranja, insurreição popular contra a Rússia no seio do seu maior aliado – a Ucrânia. Mas a guerra prossegue e a Rússia consegue marcar pontos na Bielorrússia e na batalha do gás natural, colocando a sustentabilidade energética da Europa em xeque.
É aqui que se dá a sucessão de eventos que referia. Já neste ano, o satélite russo Sérvia é golpeado por uma insurreição nacionalista no Kosovo. A União Europeia divide-se, mas a balança pende inelutavelmente a favor do princípio da autodeterminação dos povos, com o apoio do 2.º vector do eixo atlântico. E nasce um novo ‘Estado de facto’.
Insatisfeita, a Rússia continua a aumentar o tom das suas ameaças. A oportunidade de agir à bruta surge quando um território georgiano com uma pequena população revoltosa é atacado pela pátria-mãe. A pretexto de defender a autodeterminação dos povos, a Rússia intervém, visando ganhar um satélite (ainda que minúsculo) – e outras não poderiam ser as razões para a intervenção militar desta semana. A Rússia nunca defendeu o princípio do Estado-Nação; ela própria é um conjunto de um povo maioritário e de vários outros que a ele estão submetidos. O que está em causa são os interesses do Império Russo.
Qual é a consequência de tudo isto? É simples. Uma análise a longo prazo, e não circunstancial, facilmente denota o movimento de forças antagónicas, numa luta entre diversas potências territoriais pelo controlo de territórios, em regra adjacentes. Ou seja, atravessamos um momento de formação de impérios. A guerra na Geórgia é mais um caso. Os povos desse país e da Ossétia são peões num jogo maior, que se joga entre os EUA/UE (cujos interesses têm vindo a conciliar-se, exceptuando na Guerra de 2003), China, e, num segundo patamar Índia, Rússia e Brasil.
Por isso, ao contrário do que defendem alguns, a questão que se coloca neste caso concreto da Ossétia do Sul não é uma dialéctica entre o princípio da integridade do território e o da autodeterminação. A questão é entre a entente Washington-Bruxelas e Moscovo. Tanto a UE e os EUA como a Rússia estão do lado oposto ao que costumam estar, o que, por si só, corrobora esta tese.
Uma última consequência é a extinção do ideal novecentista do Estado-nação, que se torna impossível perante a força gravitacional irresistível dos planetas deste sistema solar. Restarão como exemplos mais próximos desse ideal aqueles estados que optem por ceder a vários impérios ao mesmo tempo (caso provável do Cazaquistão), e os que se integrem em organizações supranacionais como a UE, o Mercosul e a UA (enquanto estas não assumirem, elas próprias, as vestes de impérios proprio sensu).
Nota (1): Utiliza-se a expressão império na falta de outro mais adequado. Os impérios do séc. XXI de que falo não devem ser entendidos como sinónimos dos impérios em sentido tradicional. Mas são a realidade geopolítica mais semelhante, daí a utilização da palavra.
Nota (2): Também não são os impérios na acepção bloquista de Daniel Oliveira:
O resumo é simples: os Impérios pensam e agem como Impérios. No meio usam argumentos morais, políticos e jurídicos. Quase nunca valem nada. As razões são sempre as mesmas: as do mais forte. O Império está acima da razão. Seja qual for o Império.
Como é óbvio, isto não tem qualquer cabimento. O mesmo tipo de argumentos poderia ser utilizado contra os Estados “não imperiais”. São aquelas máximas genéricas do costume. Qualquer estrutura política, desde a Antiguidade Clássica até aos dias de hoje, faz muitas vezes prevalecer os seus interesses sobre a coerência e mesmo sobre princípios consagrados – o que não é irracional. É certo que isso ocorre em graus diferentes. Mas considerar que um Império é necessariamente pior do que um Estado nessa questão é simplesmente uma demonstração da demagogia e do populismo a que alguma esquerda nos vem habituando.

Press Room: Os Jogos para além dos Jogos
Agosto 9, 2008Quatro peças muito interessantes de duas das mais conceituadas revistas de política internacional:
- China’s Olympic Nightmare: What the Games Mean for Beijing’s Future, E. Economy e A. Segal, Foreign Affairs;
- The Right Way to Engage China: Strengthening US-Chinese Ties, H. Paulson Jr., idem;
- Prime Numbers: Rings of Gold, by Brad R. Humphreys (gráficos), Foreign Policy;
- Photo Essay: Revisiting the Most Controversial Olympics of All (Jogos de 1936), idem.
Atenção especial aos dois primeiros gráficos desta compilação da Foreign Policy (3.º link), que contrariam a ideia (muito consensual em Portugal) de que grandes eventos internacionais propiciam um reforço da economia (MFL ficaria muito satisfeita em vê-los…):
