Apoiei Pedro Passos Coelho à presidência do PSD por considerar o seu ideário muito semelhante ao meu. Apesar de algumas reticências quanto a alguns “acompanhantes” do candidato derrotado, vi nele um novo espírito, uma lufada de ar fresco no conservadorismo a que o PSD se tinha renegado. E o liberalismo económico e social propagandeado não me podia ficar indiferente.
Quando ele perdeu as eleições directas para a liderança do PSD, foi garantido que o seu grupo não iria fazer uma política de guerrilha contra a líder eleita. A escolha dos social-democratas seria respeitada, e MFL apoiada como candidata a PM, embora se reservasse o direito de fazer reparos a determinados aspectos, sobretudo ideológicos, em que houvesse divergências com a nova liderança social-democrata.
Logo após Ferreira Leite ter assumido funções, Passos Coelho apontou o que via como falhas da nova líder, e anunciou a criação de um think tank de apoio, a longo prazo, às suas ideias – mantendo a sua palavra. Qualquer militante do PSD, sobretudo com aspirações a Presidente, tem o direito, se não o dever, de se precaver e preparar as suas aspirações, numa construção de um projecto. Não podemos ficar reféns da ditadura do pensamento único no interior dos partidos, sob pena de se esvaziar a política nacional de conteúdo.
Porém, a crítica a MFL não se ficou pelos reparos. Pelo contrário, Passos Coelho e os seus apoiantes intensificaram os ataques – nada ideológicos. De tal forma que passou a estar em causa, não a preparação de uma alternativa a longo prazo, mas a ascensão política a curto prazo, ainda que à custa da destruição da liderança actual.
Tudo passou a servir para atacar a liderança. Hoje, o DN noticiava que o Passismo apontava espingardas à líder por ela ter atacado plano Sócrates para combater a crise. Ou seja, Passos Coelho saiu em defesa do Primeiro-Ministro, a menos de um ano de eleições. Isto depois de os blogues de apoio ao ex-candidato terem passado semanas criticando o “silêncio” de Ferreira Leite. Quando ela não falava, devia falar. Quando ela falou, devia ter ficado calada. Onde está a coerência disto?
Para cúmulo, Passos Coelho chega a defender um grande consenso em torno das questões económicas, como se não fosse ele o candidato que mais defendeu a ruptura com as concepções económicas dominantes em Portugal – ele que se apresentava como o candidato contra o bloco central. E, ao fazê-lo, Passos Coelho dá aval à política intervencionista que ele próprio criticava e vilipediava. Em que pé ficamos, sr. Passos Coelho? Ou o liberalismo não passou de mais um “truque” para dar a falsa ideia de mudança à sua candidatura?
Tal como as pessoas comuns, alguns políticos têm mais carácter do que outros. Os que têm carácter, sabem frear a sua ambição e os seus interesses pessoais em nome do que é correcto, e, no mínimo, em nome do respeito por alguns valores, por menores que eles sejam. Hoje cheguei à conclusão de que Pedro Passos Coelho talvez não faça parte desse limitado rol de políticos. Foi uma boa desilusão: assim não tenho de a encarar noutras circunstâncias.