
Porque perdeu o PSD?
Outubro 3, 2009Não há como dizê-lo de outra forma: o PSD teve uma derrota tremenda nas legislativas. Um Governo desgastado, com um líder pouco credível e suspeito de corrupção, conseguiu manter parte do terreno recuperado à direita nas eleições de 2005, e limitou as perdas para a extrema esquerda. A responsabilidade desta situação é do PSD, tendo em conta que é a única alternativa possível ao PS, o único partido que pode capitalizar uma vitória útil à custa do adversário. A ascensão dos pequenos demonstra isso mesmo: o PSD não conseguiu assumir-se como alternativa aos olhos da maioria das pessoas verdadeiramente descontentes. Só isso pode explicar que tenha conquistado apenas mais 6.000 votos em comparação com o desastre das anteriores eleições - enquanto, à sua direita, o CDS-PP teve um acréscimo de cerca de 170.000 votos e, à esquerda, PCP e BE subiram na ordem dos 200.000. Os micro-partidos creceram perto de 55 mil votos. Num exercício hipotético, a soma do crescimento dos “partidos de protesto” com os votos totais do PSD, ultrapassando os 2 milhões de votos, aproxima-se significativamente dos votos do PS. Mas este não é o único factor a ter em conta. Embora os votos em branco tenham diminuído, os nulos aumentaram. E foram votar menos 55 mil pessoas do que em 2005.
A falta de capacidade que o PSD demonstrou de galvanizar as pessoas é uma razão significativa para que os eleitores tenham optado pelo voto útil no PS, pela revolta dos pequenos, pelo voto nulo, ou por nem sequer ir votar. A responsabilidade não pode deixar de ser atribuída às opções de Manuela Ferreira Leite. É verdade que o descrédito em que o partido caiu em 2005 (independentemente das razões) não poderia ser apagado ou esquecido em quatro anos e meio. Poderia ter sido limitado, mas o clima de tensão interna destes anos na oposição fez questão de manter viva a crítica generalizada à governação da parte final de Durão Barroso e do curto mandato de Santana Lopes. Embora Ferreira Leite tenha sido jogadora nestes tabuleiros, a responsabilidade essencial não é sua e a memória teria, em qualquer caso, efeitos nestas eleições. Há quem tente imputar a Passos Coelho a derrota, e é inegável que tanto ele como os seus apoiantes a desejavam. Mas uma coisa é desejar, outra é provocar. E, diga-se, a guerra civil interna ultrapassa Passos Coelho e a campanha eleitoral. É verdade que ele e os seus apoiantes atacaram constantemente Ferreira Leite neste período, mas foram ela e os seus apoiantes que perderam as eleições, por mérito próprio. Nem a guerra interna nem os efeitos da memória implicam uma derrota assim. Há outras razões para isso.
Ferreira Leite quis fazer uma campanha pela negativa. Começou, desde logo, por tentar dizer que não faria campanha – um evidente engodo. Que dizer daqueles agregados de pessoas com bandeiras a gritar “PSD”, com um orador no púlpito a debitar soundbites? Seriam “sessões de esclarecimento”. E as arruadas? E os panfletos? A não-campanha de MFL acabou por ser uma campanha como as outras, mas mais fraca. Nem sequer foi uma campanha “diferente”, mais institucional. Foi, pura e simplesmente, uma campanha à moda antiga, apenas recusando tecnologias e palcos bonitos para dizer que não era uma campanha. Em vez dos staffs de agências de comunicação, o trabalho ficou a cargo de burocratas do partido e de políticos, como antigamente se fazia. O resultado disto só poderia ser inferior ao de uma campanha assumida.
A campanha continuou negativa em relação ao conteúdo. Em vez de focar no que faria, o PSD optou por dizer o que não faria. Não faria casamentos gays. Não faria TGV. Não faria esta avaliação de professores. O que faria então? Faria testes ao TGV. Faria outra avaliação de professores. Abria-se, assim, a porta a que o “não” se tornasse num “não agora, mas talvez depois sim”. Escapou a esta areia movediça a política fiscal, em que Ferreira Leite esteve bem. Mas o programa do PSD, que pretendia não prometer o que não podia cumprir, apresentava, a par da redução fiscal, mais gastos e a manutenção das despesas actuais, sem explicar bem de onde viria o dinheiro para tapar o buraco. Além disso, as semelhanças com o programa do PS eram inegáveis: ideias idênticas, dispostas de forma idêntica. O PSD procurava afirmar-se pela negativa ao PS e não pela alternativa ao PS – note-se a diferença. Não estranha que não tenha sabido responder com aço às acusações de neo-liberalismo do PS. Ficou ali, a meio do muro, querendo distanciar-se mas sem se afirmar.
Ferreira Leite partia de uma vantagem óbvia em relação a Sócrates: o carácter. Apesar de ser política há décadas, as pessoas (excepto os adversários) não questionavam a sua seriedade. Segundo uma sondagem, esse era o maior trunfo da líder do PSD face ao do PS. Mas até isso foi desbaratado, em dois tempos. Primeiro, as listas à AR, incluindo pessoas de idoneidade mais do que duvidosa, provavelmente criminosas, e uma dança das cadeiras que, por exemplo, pôs um açoreano como cabeça-de-lista pelo distrito da Serra da Estrela. O mesmo PSD que tinha como benefício o facto de José Sócrates ser suspeito de corrupção e que tinha prometido impedir arguidos de se candidatarem impôs candidatos como António Preto - aliás, contra as estruturas regionais. O mesmo PSD moralista face às duplas candidaturas entrava na dança das cadeiras (distritos) e também fazia duplas candidaturas encobertas (filhos e esposas de presidentes de câmara assumindo os lugares nas listas que, de outro modo, seriam ocupados por eles). Depois, a visita a Alberto João Jardim. Manuela Ferreira Leite passeou-se, feliz e contente, no carro oficial do governo regional, sem se importar com o que viria a seguir – o aproveitamento óbvio do PS, de forma a tentar sobrepôr às suspeitas de corrupção de Sócrates o peculato de uso dela. A “seriedade”, a “credibilidade”, um potencial efeito moralizador do PSD foi por água abaixo.
A visita à Madeira também golpeou um dos principais slogans do PSD (novamente pela negativa): a “asfixia democrática” do PS. Cedo a denúncia das pressões socialistas sobre a comunicação social se neutralizou, quando Ferreira Leite veio apoiar um governante também ele “asfixiante”, Alberto João Jardim. Nem a proposta de limitar a força censória da ERC impediu o PSD de cair no descrédito. PSD que já tinha um historial de tentativas de controlo dos media e que, por isso, deveria ter duplas cautelas em afirmar que não faria o mesmo quando voltasse ao poder. No fim da campanha, já não se podia crer que Manuela Ferreira Leite fosse governar com respeito absoluto pela comunicação social, apesar de não ser tão obsessiva quanto José Sócrates. A exclusão de Passos Coelho das listas apenas contribuiu para se duvidar do espírito aberto e livre da liderança social-democrata.
O passo atrás da Presidência da República foi a gota final. A “asfixia democrática” já estava enfraquecida, e foi um golpe do destino quando, depois de o PSD ter tentado colar-se ao Presidente e aproveitar o caso das escutas (o que o PS também fez, à sua maneira), uma agência de comunicação (ligada aos socialistas) divulgou, através do DN (ligado aos socialistas), uma das fontes das notícias que apontavam suspeitas de vigilância à Presidência por parte do Governo, forçando o PR a afastar Fernando Lima. O PSD, que nada tinha a ver com o assunto (e que, provavelmente, desconhecia os contornos do caso), foi apanhado pelo reverso de uma onda que quis cavalgar. Em termos substanciais, a ideia de ”asfixia democrática” não ficaria posta em causa pelo volte face contra Cavaco (nem sequer a divulgação da fonte significaria, em abstrato, que eventuais suspeitas de vigilância fossem infundadas) - mas em campanha esta evidência não colhe. Uma contradição acessória pôs em cheque o argumento já enfraquecido, e a campanha do PSD morreu, como disse Francisco Louçã. O erro, evitável, foi basear a campanha nesse argumento. O PSD poderia ter saído quase incólume, caso se tivesse centrado noutros argumentos. Mas não tinha.
