Não há como dizê-lo de outra forma: o PSD teve uma derrota tremenda nas legislativas. Um Governo desgastado, com um líder pouco credível e suspeito de corrupção, conseguiu manter parte do terreno recuperado à direita nas eleições de 2005, e limitou as perdas para a extrema esquerda. A responsabilidade desta situação é do PSD, tendo em conta que é a única alternativa possível ao PS, o único partido que pode capitalizar uma vitória útil à custa do adversário. A ascensão dos pequenos demonstra isso mesmo: o PSD não conseguiu assumir-se como alternativa aos olhos da maioria das pessoas verdadeiramente descontentes. Só isso pode explicar que tenha conquistado apenas mais 6.000 votos em comparação com o desastre das anteriores eleições - enquanto, à sua direita, o CDS-PP teve um acréscimo de cerca de 170.000 votos e, à esquerda, PCP e BE subiram na ordem dos 200.000. Os micro-partidos creceram perto de 55 mil votos. Num exercício hipotético, a soma do crescimento dos “partidos de protesto” com os votos totais do PSD, ultrapassando os 2 milhões de votos, aproxima-se significativamente dos votos do PS. Mas este não é o único factor a ter em conta. Embora os votos em branco tenham diminuído, os nulos aumentaram. E foram votar menos 55 mil pessoas do que em 2005.
A falta de capacidade que o PSD demonstrou de galvanizar as pessoas é uma razão significativa para que os eleitores tenham optado pelo voto útil no PS, pela revolta dos pequenos, pelo voto nulo, ou por nem sequer ir votar. A responsabilidade não pode deixar de ser atribuída às opções de Manuela Ferreira Leite. É verdade que o descrédito em que o partido caiu em 2005 (independentemente das razões) não poderia ser apagado ou esquecido em quatro anos e meio. Poderia ter sido limitado, mas o clima de tensão interna destes anos na oposição fez questão de manter viva a crítica generalizada à governação da parte final de Durão Barroso e do curto mandato de Santana Lopes. Embora Ferreira Leite tenha sido jogadora nestes tabuleiros, a responsabilidade essencial não é sua e a memória teria, em qualquer caso, efeitos nestas eleições. Há quem tente imputar a Passos Coelho a derrota, e é inegável que tanto ele como os seus apoiantes a desejavam. Mas uma coisa é desejar, outra é provocar. E, diga-se, a guerra civil interna ultrapassa Passos Coelho e a campanha eleitoral. É verdade que ele e os seus apoiantes atacaram constantemente Ferreira Leite neste período, mas foram ela e os seus apoiantes que perderam as eleições, por mérito próprio. Nem a guerra interna nem os efeitos da memória implicam uma derrota assim. Há outras razões para isso.
Ferreira Leite quis fazer uma campanha pela negativa. Começou, desde logo, por tentar dizer que não faria campanha – um evidente engodo. Que dizer daqueles agregados de pessoas com bandeiras a gritar “PSD”, com um orador no púlpito a debitar soundbites? Seriam “sessões de esclarecimento”. E as arruadas? E os panfletos? A não-campanha de MFL acabou por ser uma campanha como as outras, mas mais fraca. Nem sequer foi uma campanha “diferente”, mais institucional. Foi, pura e simplesmente, uma campanha à moda antiga, apenas recusando tecnologias e palcos bonitos para dizer que não era uma campanha. Em vez dos staffs de agências de comunicação, o trabalho ficou a cargo de burocratas do partido e de políticos, como antigamente se fazia. O resultado disto só poderia ser inferior ao de uma campanha assumida. Read the rest of this entry ?

