
Jovens e Política: em nome de uma indiferença compreensiva
Agosto 18, 2009A mandatária legislativa do PS tem sido muito atacada ultimamente. O facto de Carolina Patrocínio ser uma escolha light já não caía bem nalguns sectores, e foi aproveitado por outros para atacar Sócrates. A gota de água está numas declarações em que ela terá dito que só comia cerejas quando a empregada tinha previamente tirado as sementes respectivas, por lhe ser incómodo fazê-lo.
Não tenho nada contra a Carolina Patrocínio, que deve captar audiências suficientes para ter um salário que pague a empregada, que deve ficar bem contente em receber a mesada por desencaroçar as cerejas – apesar de isso demonstrar alguma imaturidade, talvez. A empregada até pode fazer isso de bom grado, feliz por ajudar a sua “menina“. O que me parece significativo é ter sido escolhida como mandatária do PS. Por um simples facto: representa a imagem light, simples mas idílica na inocência política, e inferior que se insiste passar dos jovens.
Isto parte, obviamente, de um preconceito que subsiste na política (preconceito sublimado pelas jotas, que funcionam como o “PS/PSD dos pequeninos“), mas é possível que encontre feedback em muitos jovens, que se sintam representados dessa forma, numa espécie de realidade semelhante àquela que dá primazia social ao pior aluno. Talvez se sentissem intimidados caso a mandatária de Sócrates fosse uma brilhante cientista premiada internacionalmente. Por outro lado, também é natural que os mandatários sejam pessoas conhecidas, mas não parece tão certo que possam ser “político-excluídos”.
Há, obviamente a hipótese de Carolina Patrocínio ter sido escolhida por outro motivo, não tanto ligado à juventude: um certo eleitorado masculino que liga mais à política quando há umas dançarinas bonitas no palco antes dos comícios. Isso está em aberto, quando não se lhe conhecem grandes atributos, para além de ser conhecida… e de ser fisicamente atraente. De qualquer forma, a avaliação dos critérios de escolha dos mandatários de campanhas eleitorais exigiria uma análise e um juízo prévios sobre a natureza da figura que não farei, por não considerar que tenha condições (i. é, certezas) para isso.
No entanto, uma causa subjacente às escolhas que temos visto deve estar no gosto mais do que evidente, partilhado por políticos e eleitores mais velhos (os que mais afluem às urnas), em ver esta encenação do que é a juventude. O “jovem” é visto como um animal num zoo: está lá mas não participa. Quando o faz, tem de seguir as regras do jogo, com respeitinho, calando-se quando fala o “mais velho” – por oposição àquele tipo de jovem mais feroz e alienado, que rosna insultos à “cambada de velhotes” -. Em troca, recebe aquelas referências exóticas, e sorri de forma infantil, para agrado da plateia. Não é capaz de participar numa discussão política séria nem de a percepcionar.
Mas, ao contrário do que faz passar esse teatrinho, os jovens fazem tantas intrigas quanto os mais velhos. Os jovens têm (ou são passíveis de ter) ódios, amores e acções políticos. Também conseguem ver noticiários e interpretá-los (bem ou mal). Não têm tanta experiência, e isso trará, certamente, uma desvantagem significativa, quer queiram agir politicamente, quer queiram interpretar factos. Mas não justifica o fenómeno, que, na verdade, também só é possível porque o eleitorado jovem não se interessa pela política tanto quanto o eleitorado mais velho. Se se interessasse, os responsáveis políticos talvez não tivessem outro remédio que não fosse tentar conquistá-lo de forma efectiva.
A questão que se coloca, então, é a de saber se o político deve tomar a iniciativa de encarar os cidadãos mais jovens de outra forma ou se devem ser eles a se impor. Tal como na história do ovo e da galinha, não se chega a uma conclusão definitiva. Provavelmente, a solução passa pelas duas partes. O poder político tem de fazer um esforço por evitar rotular os “jovens”. Para isso, pode bem ser significativa a abolição das juventudes partidárias e a representação distorcida dos “estudantes”, mas também um programa governativo que exclua terminantemente as “políticas de juventude”, como o do arrendamento jovem.
Os “menores de 30” têm igualmente uma responsabilidade. Não se podem ver a si próprios como fruta exótica, porque isso, embora tenha algumas vantagens, traz inconvenientes mais profundos. O seu esforço deve ser o de agir sem se julgarem especiais face aos mais velhos – o que é muito comum e, paradoxalmente, os inferioriza. E também não podem pensar que a participação lhes está vedada. Neste aspecto conheço alguns exemplos, a começar por mim (mas, de longe, não só).
Sobretudo online, tenho tido a possibilidade de discutir assuntos a sério com pessoas que, francamente, estariam fora do meu alcance, por razões essencialmente geracionais. E, no entanto, a minha experiência permite-me asseverar que não há portas intransponíveis. Poder-se-á dizer que esse sucesso é balofo, uma vez que se trata de um ambiente em que só participam pessoas mais modernas e abertas. Que seja. Não deixa de provar que existem portas, ou, se se preferir, janelas.
É certo que há enormes diferenças entre jovens, pessoas de meia-idade e idosos, mas nem sempre essas diferenças justificam rótulos políticos que impeçam, pura e simplesmente, os primeiros e os terceiros de desempenharem papéis relevantes de cidadania. De certa forma, a política reflecte aquele confronto geracional que só aparenta ser insolúvel por ambos os lados estarem, actualmente, salvaguardados. E se, às vezes, pode até parecer que a afirmação violenta dos jovens e o culto da juventude significam a derrota da parte mais velha, noutras, o fechamento desta sobre si própria e a permanência de um certo código de castas fazem crer que não.
O problema estará mesmo na maneira com que as partes lidam com a sua diferença, capazes de se imporem mas incapazes de comunicar. E, na imposição, talvez os jovens ganhem: já não são economicamente dependentes, mas não perderam o gene da auto-afirmação, enquanto o mundo é cada vez menos de experiência e mais de mudança. A vitória dos jovens nesta luta seria, no entanto, a derrota dos próprios jovens, que envelhecem a cada dia, por mais medicamentos e produtos que se inventem. Porém, na política, ainda mais do que na vida social, a rotulagem das pessoas é uma constante. A alegoria do “jovem” é eventualmente o maior representante dessa realidade.
Compete a cada pessoa fazer por ultrapassar esses rótulos, no seu âmbito – seja dum lado da porta, enquanto potencial excluído, seja do outro, enquanto privilegiado – e assim superar os constrangimentos. Isto levaria a questão a outros domínios, como a reforma (i. é, a retirada absoluta e praticamente imposta do indivíduo ao mercado de trabalho) ou as políticas de juventude, já referidas. Em ambas, é de referir uma ideia que me parece fundamental e tem sido esquecida: a de que a melhor maneira de abrir portas pode passar por uma indiferença compreensiva, e não pela desmedida preocupação, que na verdade se revela diminuidora, fechando as portas que diz abrir.
