O PSD reagiu de duas formas ao artigo de Ricardo Reis. Como era esperado, um porta-voz veio contestar a validade do estudo e das conclusões. Mesmo que Miguel Frasquilho tenha razão (e acredito que a tenha), a questão fundamental que ele não consegue, nem podia, contrariar é que o PSD tem sido gastador. E a partir do momento em que essa conclusão é indesmentível, surgirão sempre alguns “factos” mais favoráveis, outros não favoráveis, conforme se inclua este ou aquele dado, com esta ou aquela nuance, que assim permitem premiar este ou aquele Governo com o honroso epíteto de “mais gastador”. Mas, em qualquer dos casos, a gestão passada dos governos do PSD fica sempre em causa. Quanto a isto, o PSD preferiu fingir que não é com ele: disse não à Política de Verdade e sim à mais elementar táctica de refutar quaisquer notícias negativas.
A segunda reacção veio directamente de Manuela Ferreira Leite. Numa conferência do Diário Económico, a líder do PSD mostrou a fibra de que é feita e que Sócrates não tem. Com um pensamento estruturado, falou do estigma contra a classe média alta e os ricos, recusando embarcar em populismos. Garantiu um “desafogo”, através da simplificação do IRS, mesmo que não venha a baixar muito os impostos. Explicou por que acha que é melhor taxar o consumo do que o rendimento. Atacou as golden share. Em relação às contas públicas, disse que é preciso combater o défice. Mesmo tratando-se de uma sessão informal (apesar do mofo da Corte presente), percebeu-se, mais do que medidas concretas, o que se pode esperar dela perante as diversas situações concretas que lhe surgirão enquanto Primeira-Ministra – qual será a perspectiva com que vai encarar os problemas e encontrar soluções. E isso é crucial.
Esteve muito bem, mas quase parecia que não tinha sido publicado um artigo arrasador na véspera. Sem se dirigir ao estudo, Ferreira Leite prometeu baixar a despesa, mas não assumiu que falhou em fazê-lo no passado. Embora tenha falado sobre fiscalidade e finanças de forma estruturada, não se tratou ali de um discurso abrangente e contextualizante. De certa forma, Ferreira Leite correspondeu em metade ao que eu gostaria. Faltou uma conexão efectiva com o estudo de Ricardo Reis: assumir responsabilidades e seguir em frente.


