Arquivo de Julho, 2009

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Oportunidade (mais ou menos) perdida

Julho 30, 2009

O PSD reagiu de duas formas ao artigo de Ricardo Reis. Como era esperado, um porta-voz veio contestar a validade do estudo e das conclusões. Mesmo que Miguel Frasquilho tenha razão (e acredito que a tenha), a questão fundamental que ele não consegue, nem podia, contrariar é que o PSD tem sido gastador. E a partir do momento em que essa conclusão é indesmentível, surgirão sempre alguns “factos” mais favoráveis, outros não favoráveis, conforme se inclua este ou aquele dado, com esta ou aquela nuance, que assim permitem premiar este ou aquele Governo com o honroso epíteto de “mais gastador”. Mas, em qualquer dos casos, a gestão passada dos governos do PSD fica sempre em causa. Quanto a isto, o PSD preferiu fingir que não é com ele: disse não à Política de Verdade e sim à mais elementar táctica de refutar quaisquer notícias negativas.

A segunda reacção veio directamente de Manuela Ferreira Leite. Numa conferência do Diário Económico, a líder do PSD mostrou a fibra de que é feita e que Sócrates não tem. Com um pensamento estruturado, falou do estigma contra a classe média alta e os ricos, recusando embarcar em populismos. Garantiu um “desafogo”, através da simplificação do IRS, mesmo que não venha a baixar muito os impostos. Explicou por que acha que é melhor taxar o consumo do que o rendimento. Atacou as golden share. Em relação às contas públicas, disse que é preciso combater o défice. Mesmo tratando-se de uma sessão informal (apesar do mofo da Corte presente), percebeu-se, mais do que medidas concretas, o que se pode esperar dela perante as diversas situações concretas que lhe surgirão enquanto Primeira-Ministra – qual será a perspectiva com que vai encarar os problemas e encontrar soluções. E isso é crucial.

Esteve muito bem, mas quase parecia que não tinha sido publicado um artigo arrasador na véspera. Sem se dirigir ao estudo, Ferreira Leite prometeu baixar a despesa, mas não assumiu que falhou em fazê-lo no passado. Embora tenha falado sobre fiscalidade e finanças de forma estruturada, não se tratou ali de um discurso abrangente e contextualizante. De certa forma, Ferreira Leite correspondeu em metade ao que eu gostaria. Faltou uma conexão efectiva com o estudo de Ricardo Reis: assumir responsabilidades e seguir em frente.

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Aproveitar a oportunidade

Julho 29, 2009

Não basta vir um porta-voz contrariar o estudo. É necessário que o PSD tenha a honestidade e a efectiva Política de Verdade de reconhecer o desnorte do seu passado, para que o possa superar. Não vale fugir, enterrar a cabeça na areia ou, pior, fingir que não é com ele. O PSD tem de assumir as suas responsabilidades no Estado do estado. A direcção actual deve assumi-las mesmo que não sejam da sua responsabilidade. Só assim pode exigir ao PS que faça o mesmo. Só assim pode exigir aos portugueses, e a mim, que a apoiem. Porque não acredito na regeneração do errante que não admite ter errado.

Esta é a oportunidade de Manuela Ferreira Leite fazer um discurso estruturante sobre a economia e as finanças públicas. É a oportunidade para mostrar o que vale,  para contar a sua história e a história deste país, apresentar a sua visão,corrigir o que tem sido dito e deixar o PS, este PS, entregue à sua argumentação m esquinha e à sua política medíocre, criando um fosso insustentável. Esta é a oportunidade de Ferreira Leite conquistar as pessoas da maneira certa (e não da maneira errada a que estão habituadas) e iniciar verdadeiramente um novo ciclo. É a oportunidade, em suma, de converter uma notícia negativa e uns ataques menores numa demonstração de carácter.

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Sobre o estudo

Julho 29, 2009

Crendo em todos os dados apresentados por Ricardo Reis, algumas conclusões devem ser tiradas.

1. Manuela Ferreira Leite falhou em pôr “ordem na casa”. É certo que ficou a meio do mandato, mas isso não a iliba de não ter conseguido conter a despesa. E embora as culpas sejam provavelmente e no essencial de Durão Barroso, a quem competia, em última análise, dar a ordem de reduzir gastos, definir metas e controlar o cumprimento pelos diversos ministros, há alguma “culpa” de Ferreira Leite, enquanto Ministra das Finanças.

Por isso, no XV Governo, a despesa pública continuou a aumentar ao mesmo ritmo dos anteriores (Cavaco e Guterres), diz o artigo, que também afirma que seria, no entanto, o Governo seguinte, com outros ministros, o mais despesista de sempre. Manuela Ferreira Leite, que entrou em 2003 (três anos depois do famoso artigo de Cavaco) e saiu em 2004 (supostamente antes do boom de despesa), não pode ser acusada de criar o monstro, como fez João Tiago Silveira.

Apesar de tudo, foi Ferreira Leite quem incutiu uma nova mentalidade de Estado na gestão da coisa pública. Embora não tenha conseguido cumprir (e possivelmente tenha compactuado nesse incumprimento), consciencializou na vida política a necessidade de conter o défice e de reduzir a despesa. Esperemos que, solta das amarras de Durão, seja capaz de, desta vez, levar por diante as ideias responsáveis que preconizou. Read the rest of this entry ?

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O novo porta-voz do PS

Julho 28, 2009

O novo secretário de imprensa (ou porta-voz) do PS, João Tiago Silveira, resolveu reagir oficialmente a um estudo da autoria de Ricardo Reis (não o heterónimo, mas o economista), que revelava que os governos do PSD tinham sido mais responsáveis do que os do PS pelos aumentos da despesa das últimas décadas. Silveira fez uma conferência de imprensa, não para pedir desculpa pela quota-parte do PS nessa irresponsabilidade, mas para concluir que Manuela Ferreira Leite era uma grande responsável pelo “monstro” do défice, por não o ter conseguido controlar. E terminou assim: “os portugueses sabem em quem devem entregar as suas poupanças“.

Ao início, julguei que Silveira se tinha enganado, dizendo “poupanças” em vez de impostos, mas a repetição da palavra tirou-me as dúvidas. O PS acha que é um banco de investimento. Mas suponho que, ao dizer que os portugueses sabem em que banco entregar as suas “poupanças“, o secretário de imprensa não se esteja a referir ao PS, cujo Governo viu um dos seus fundos de investimento (o da Segurança Social) perder 39% em Bolsa. Ou então Silveira considera este prejuízo um bom resultado da actividade dos melhores correctores bolsistas do PS.

Não é preciso muito para concluir que vai um longo exercício de ginástica argumentativa entre dizer-se que alguém fracassou em cumprir uma tarefa a que se tinha proposto e acusar esse alguém de ser o responsável pelo problema que originou aquela tarefa. A ginástica ainda é maior quando se parte do facto de se ser menos irresponsável para concluir que se é muito responsável. Ou seja, José Tiago Silveira é um óptimo porta-voz.

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Press Room: Contas trocadas

Julho 27, 2009

Vale mesmo a pena ler o artigo de Medeiros Ferreira, no Correio da Manhã, sobre PS e PSD:

Depois das Europeias, o PS e o PSD ficaram paralisados, o PS pela derrota, e o PSD perante a vitória. E assim se passou o tempo. Como se nenhum deles estivesse preparado para uma inversão de papéis.

O caso do PS é talvez mais compreensível, embora sintomático. Dotou-se de um líder que em poucos meses o levou à maioria absoluta perante o entusiasmo da sociedade civil consubstanciada em banqueiros, empresários, gestores, grandes causídicos, novos militantes esperançosos, e até certos círculos da Europa comunitária.

Para muitos apareceu como um vencedor nato, quase um homem providencial, ou pelo menos como metade dele, depois da eleição de Cavaco Silva para PR. As sondagens permaneciam constantes mau grado o mal-estar das manifestações. Era um ambiente propício a conjecturas milenaristas, os dirigentes do PS deliciavam-se com o seu novo papel na sociedade portuguesa. O resultado das europeias obrigou a um acordar estremunhado. Os apoiantes do mundo exterior tornaram-se mais discretos, a perplexidade assaltou os mais entusiastas. Quase ninguém propôs um exame de consciência.

O caso do PSD é mais estranho, mas não menos significativo. Depois dos festejos da vitória propôs que o país parasse à espera da nova distribuição de tarefas, nomeadamente no domínio das obras públicas, um ministério assim rebaptizado pelo cavaquismo governamental. De resto nada disse de substancial sobre o futuro. Usou um discurso político e programático pobre. Como se não se tivesse preparado para a eventualidade.

Os portugueses vão ter de se armar de paciência durante uns tempos até aparecerem outras propostas.

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Algo sobre Socialismo

Julho 26, 2009

Estou a ler o mais recente livro de Eduardo Lourenço, A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História? (Gradiva, 2009). Na sequência das eleições presidenciais de 1985, Lourenço escrevia um artigo que termina assim:

Não faltam sucessores no Partido Socialista. Haverá até demais como no PSD antes de Cavaco Silva [e depois..] De resto, o PS não precisa de um «sucessor» para Mário Soares. Seria um duplo e inane pleonasmo. Como Mário Soares iniciou um novo ciclo presidencial, o PS, obrigatoriamente adulto pela sua ausência [?!], precisa de um líder novo, na idade e, sobretudo, no perfil. A uma época romântica e épica seria bom que sucedesse uma outra performance, toda voltada para o século próximo e não para aquele donde vem, época encarnada em alguém que tenha a mais da competência que a Direita se outorga, o sonho e a vontade de solidariedade que são a única razão de ser da Esquerda.

Para lá da constante confusão do autor entre ideologia política e carácter pessoal, ele enganava-se em supor que Soares se evaporaria do PS, para se assumir como “pai da pátria”. Soares seria um dos coveiros de Cavaco, entregando, feliz e contente, o poder de volta ao PS. E só Sócrates viria, de certa forma, encarnar a figura desejada: se, é claro, se considerar que a profusão de medidas é sinónimo de competência, que um plano tecnológico significa voltar-se para o século próximo, e que uma crise é suficiente para justificar uma formação ideológica oportunista, onde antes havia praticamente o vazio e o remendo.

Todos os artigos que tenho lido de Lourenço são, de resto, assim. Começam com uma análise pertinente, e acabam com propostas muitas vezes em desacordo com ela. Quando fala na crise da Esquerda, pretende que ela se modernize, mas as soluções são as mesmas fórmulas do passado. E a referência à ética de Esquerda como única ética possível não pode deixar de ser vista como reflexo de alguém que nasceu, e viveu grande parte da sua vida, numa realidade em que ser de Direita era sinónimo de suportar uma ditadura. Só assim se entende o desprezo que revela e a desvalorização, quer da evolução das Direitas, quer dos maus exemplos das Esquerdas. Porque ser de Esquerda é bom e ser de Direita é mau, ponto final.

Mas vale a pena ler. Revela-nos o melhor pensamento ortodoxo do Socialismo. De resto, somos todos crianças face à estrutura de Lourenço, enquanto o seu mérito me parece muitas vezes infantil. De qualquer forma, seja qual for o juízo que se faça, e as conclusões que se tirem, é enriquecedor e coloca problemas dignos de reflexão. Fica, no entanto, a ressalva de não ter terminado de ler o livro, com tudo o que isso implica.

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Sunday Talk: Balanços 2

Julho 19, 2009

Ao contrário de José Sócrates, que é o motor de campanha de um governo moribundo, Ferreira Leite é o ponto mais fraco, na percepção pública, do PSD. O contraste não poderia ser melhor ilustrado do que pela realidade. O cartaz de pré-campanha do PS apresenta Sócrates numa multidão de mulheres, olhando para ele com a certeza de que aquele é o seu líder, um gradiente distribuído entre elas fazendo as cores da bandeira; só no logótipo vemos alusão ao Partido Socialista. O cartaz do PSD, lançado na sequência da vitória nas Europeias, pisca o olho ao eleitor, insinuando que dará a mesma luta nas legislativas, em nome do país. Vê-se laranja por todo o lado, nota-se a simplicidade (a falácia do “não fazemos marketing político”), mas nem um fio de cabelo de Manuela Ferreira Leite.

E isto diz tudo: enquanto marca, o PSD está em ascensão e o PS em queda livre. Enquanto produto, Manuela Ferreira Leite permanece numa embalagem pouco cuidada, cheia de gaffes, de passado difícil com o consumidor, sexualmente inferior (é mulher), ao canto da prateleira, enquanto José Sócrates vem em pack, uma embalagem colorida, com promoções, cheio de pequenos pormenores, colocado na entrada do supermercado em pirâmide. E parte de uma vantagem no mercado (as pessoas já compraram o produto, ainda têm a embalagem vazia em casa). É certo que falar na sua seriedade é uma boa aposta porque é o que Ferreira Leite tem de melhor e mais visível. De facto, o conteúdo de MFL é visto como mais fidedigno mas, por outro lado, quem disse que as pessoas querem ouvir a verdade sobre o que estão a comprar? Read the rest of this entry ?

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Há coisas destas.. e assim..

Julho 14, 2009

A pré-campanha autárquica está, definitivamente, nas ruas. Em Lisboa, Vera Santana faz o seu retrato de um evento de campanha de António Costa.

Muitos dos que amam Lisboa juntaram-se ontem, ao pôr-do-sol, na fantástica Esplanada sobre a Cidade, que é o Jardim de São Pedro de Alcântara.

Como disse António Costa, o homem que Uniu Lisboa, estavam pessoas de esquerda, pessoas republicanas, pessoas de centro, pessoas monárquicas, jovens e Velhos.

Esperem lá.. “monárquicas”?! Elas escreveu mesmo isto? Ou pior, está a citar António Costa?

Pensando melhor.. hum, a ideia não é assim tão má.. Sobretudo antecipando as legislativas. Estou a perceber a ideia: um gigantesco “Movimento Monarcas por Sócrates”, a repetir a proeza dos “Democrats for Reagan”. Dezenas, talvez centenas, de monárquicos agitando bandeiras de D. João VI em eventos tauromáquicos, nas praças de touros e, quiçá, numa tourada… Que imagem! Qual “Democrats for Reagan”, qual quê? A ideia não só não é má, como é brilhante!

Mas a minha visão continua. “Judeus por Sócrates” e “Nazis por Sócrates, “Gays por Sócrates” e “Matilde Sousa Franco por Sócrates”. Todos juntos, todos felizes. Todos gritando “PS! PS!” num estádio de basquetebol, à entrada do querido líder. Atrás dele, as pessoas e os cartazes com os nomes dos respectivos movimentos. “CIA por Sócrates”, “Clube-de-fãs-de-Ana-Gomes por Sócrates”; “vítimas de violência doméstica por Sócrates”, “violadores domésticos por Sócrates”; “fundamentalistas islâmicos por Sócrates”, “católicos por Sócrates”, “ateus por Sócrates”. Estrela Serrano, com uma t-shirt cor-de-rosa estampada “ERC”, ao lado de uma  Manuela Moura Guedes histérica, de chinelos, calças de ganga, uma blusa decotada e um colar de bijuteria, agarrando um cartaz: “TVI por Sócrates”. Ahh.. que imagem bonita de se ver num “pôr-do-sol”..

E vieram mais cinco que trouxeram mais cinco. O cantor de Lisboa falou e exigiu, de António Costa, mais Cultura para a Cidade, mais calor para os Velhos, mais apoio para quem dele necessita.

Foi um lindo momento de Amor entre Lisboetas e a Cidade. Uma Oferenda colectiva e uma Promessa sobre a Cidade, ao pôr-do-Sol com o Tejo ao fundo.

Última Hora: Jean-Marie Le Pen juntou-se a Nelson Mandela na campanha de António Costa. Vera Santana em êxtase com o “lindo momento de amor”. Também eles “amam Lisboa”. E vieram mais cinco, e mais cinco, e.. explosão?! Não, é só mais um grande feito de António Costa, esse hipnotizador de massas: Unir Lisboa.

Nota: os eventos retratados neste episódio são mera ficção. Qualquer semelhança com a realidade, presente ou futura, é mera coincidência (ou não).

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Flor de Estufa

Julho 14, 2009

Vasco Pulido Valente sobre Marcello Caetano:

Disse em 1973 a António Alçada Baptista que não tinha uma «concepção pedagógica do governo». Tinha: mas queria dizer que, para ele, a função da autoridade não era «impor às pessoas o que achava que elas deviam fazer». Pouco a pouco, porém, abandonou esta neutralidade céptica. Ele não se importaria de ser «largamente permissivo»num mundo pacífico, regido pelas regras do debate universitário, e não por gente que, a título de argumentos, «regougava» as asneiras do «velho arsenal das utopias» e do «bricabraque dos sistemas». Mas, no mundo em insurreição que lhe coubera em sorte governar, num mundo de fanáticos e de «frenéticos», em que todos aqueles que deviam o «mínimo de obediência» estavam em guerra com todos aqueles que tinham «o mínimo de autoridade», «os filhos contra os pais, as mulheres contra os homens, os alunos contra os professores, os empregados contra os patrões e os governantes contra os governados», competia-lhe não confiar nos «automatismos sociais» e manter a autoridade sem desfalecimento.

Manter a autoridade para reprimir, quando fosse necessário. Mas, fundamentalmente, para defender a «posição do centro» e dela «a cada passo fazer apelo à razão». A democracia era a morte da razão, e ele o «paladino do equilíbrio». Não se resignava (nunca se resignou) a abolir a razão, mesmo à custa da liberdade, convicto de que, limitando-a, não a matava. De que, pelo contrário, a defendia. À mercê das violências do «instinto», a liberdade, essa «flor de estufa», precisava de um poder interveniente e prescritivo para sobreviver. Ele, pelo menos, não a trairia.

Portugal: Ensaios de História e de Política, págs. 226-227.

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Sunday Talk: Balanços I

Julho 12, 2009

O PS está em fim de ciclo. Todos o sentem, quer o admitam ou não: a necessidade de dramatizar com o discurso sobre um pretenso neoliberalismo da liderança do PSD ou de criticar o passado (“o teu governo foi pior do que o meu, por isso é melhor que fique lá o meu”) demonstra inequivocamente que os socialistas percebem o fracasso da sua “obra feita”.  A demissão de Manuel Pinho, por ter feito uns corninhos (independentemente de eu achar que isso não justifica, em si, qualquer demissão), é o símbolo dessa fraqueza.

Talvez seja cedo para decretar uma derrota socialista. O animal feroz vai dar tudo por tudo em campanha. Ele tem nota claramente positiva entre a opinião pública, ao contrário do seu Governo. Por isso, toda a campanha irá basear-se na sua pessoa – o que de resto já começou, com cartazes magníficos (não concordo com as críticas ao primeiro cartaz de pré-campanha do PS) e um pequeno teatrinho (o seu casamento terá sido marcado para este verão).

Mesmo assim, convenhamos que o PSD, ao ter uma vitória inesperada nas Europeias (ou uma não-derrota), provocou um rude golpe na teoria da invencibilidade, empurrando os socialistas para o discurso do medo anti-liberal que, de resto, Vital Moreira tinha feito, numa tentativa de neutralizar comunistas e bloquistas. Psicologicamente, as pessoas vêm hoje a hipótese laranja no boletim de voto como possível, plausível, verosímil.

Outro dos argumentos, a “falta de alternativa” ao PS, ficou também neutralizado com a vitória do PSD, embora de um modo distorcido, é certo (o argumento baseava-se no vazio de propostas). A mutação foi significativa (o que demonstra o aperto): o PSD, que era um vazio de ideias, agora tem conteúdo, mas uma agenda subversiva.

Resta, então, ao PS apostar em Sócrates, atacar o passado de Ferreira Leite na governação, ameaçar com um futuro neoliberal, e tentar contornar a oposição geral às obras públicas, apresentando-as como a única maneira de fazer face à crise – a única acção que se pode tomar, perante a alternativa da inércia -. Admita-se que isto é pouco, e que não responde aos anseios das pessoas. A vitória do PSD é um cenário plausível -  como atestam, de resto, as sondagens.

Por isso, chegou o tempo de começar a exigir à possível Primeira-Ministra que preste contas do que quer fazer.