
Eu também voto
Maio 30, 2009Num post intitulado “Eu voto” (a que cheguei por aqui), Bernardo Pires de Lima chama os abstencionistas de “gente irresponsável”, que não votam incentivados por uns “ingratos de merda” – pessoas com “responsabilidade pública”, a.k.a. comentadores que apelam à abstenção. Para justificar os epítetos, Pires de Lima apela à “conquista” de Abril. Aqui fica o post:
Há gente irresponsável que opta por não votar. É coerente. Há gente com responsabilidade pública que não só não vota, como apela à abstenção. Estas pessoas, entre eles alguns opinadores, desprezam o voto. Têm-lhe uma raiva incontida, dão-lhe um significado diminuto. São, por outras palavras, uns ingratos de merda.
Poucos portugueses lutaram para que muitos pudessem votar um dia. O mínimo que estes milhões poderiam fazer era honrar essa conquista. Infelizmente não o fazem. Depois não se queixem.
A abstenção é um meio para se medir a temperatura da relação entre o poder político e os cidadãos. Acabar com ela é criar uma temperatura artificial, sem correspondência com a verdade: é uma artimanha. Bem sei que o autor não está a defender isso, mas faz o argumento que os que pretendem instituir o voto obrigatório usam. De qualquer forma, não ir votar não é nenhuma imoralidade digna dos insultos de Bernardo Pires de Lima.
É moral não ir votar, pelo menos tão moral quanto ir votar. Se não, pergunto: e quem vota, guiado por mensagens políticas enganosas, por promessas de tachos ou uns 5 euros, ou por um amigo que “é lá da política”, e que traz uma camioneta para carregar os amigos, pedir? No fim de contas, não seremos nós, os votantes, os “irresponsáveis” e os políticos “os ingratos de merda”? É essa realidade mais moral, mais correcta ou menos “merda” do que a de quem não vai votar? Entenda-se: não estou a dizer que ir votar seja menos bom do que não ir votar.
Mas “honrar essa conquista” de Abril não passa também pela liberdade de não votar? Deve uma pessoa que não acredita em nenhum partido, que não confia em nenhum líder, que não quer votar em nenhuma das alternativas, ainda assim dirigir-se à urna de voto? Faz “totoloto” para escolher? Exigir (mesmo que apenas moralmente) que uma pessoa vote em alguém quando não o quer fazer não passa de uma forma de ditadura em democracia. Não há problema em apelar-se à participação eleitoral. Mas ninguém deve ser desmerecido por não legitimar o arco-íris político conjuntural, ou por não “honrar” os combatentes da liberdade. Até porque quem se abstém pode estar a queixar-se. E, nesse sentido, a insurgência que representa a abstenção deve ser tão respeitada quanto o voto.
Eu também voto, Bernardo Pires de Lima. Só não acho que isso me dê qualquer tipo de vantagem moral sobre quem escolhe não votar. Porque, afinal de contas, não falar também é uma forma de dizer alguma coisa.
Quem não se revê nos partidos vota em branco, é diferente de se abster. Do ponto de vista prático, neste momento não faz grande diferença. Mas quem vai votar em branco honra o seu direito e cumpre o seu dever conquistado com muito sacríficio por parte de outros.
Com morais àparte, a verdade é que a responsabilidade de quem se abstem é tão elevada como de quem vota. E não ir votar e reclamar posteriormente que os politicos que governam são péssimos é irracional. A abstenção “vota” sempre ao lado de quem ganha.
Obrigado a ambos pelos comentários.
Stran, depende: de facto, quem está no poder, tendo a “máquina”, pode sair beneficiado, mas nem sempre. É que quem se abstém são os swing-voters e os eleitores não fiéis. Os partidos e candidatos com mais apoio de base ganham com isso: e não se esqueça que, neste caso concreto, Vital Moreira não é um candidato consensual no PS.
Caro anónimo, na minha opinião, o direito de votar inclui o direito de não votar. O máximo que se poderá dizer é que participar no acto eleitoral é um dever cívico. Mas acho que a “desobediência” de quem não vota, por não acreditar nas alternativas que se colocam, deve ser respeitada, e serve de barómetro à sustentabilidade do regime e à credibilidade dos seus protagonistas.