Ontem, na sua intervenção na AR sobre o 25 de Abril, Ana Drago (BE) defendeu o fim de um paradigma que terá falhado:
Partimos de uma evidência: o paradigma político seguido em Portugal nas últimas duas décadas falhou. A equação seguida por diferentes maiorias políticas, com vários nomes e diversos protagonistas, escrevia-se a três tempos: advogava-se o alargamento sem limites do espaço de intervenção do mercado, seguir-se-ia a criação acrescida de riqueza, e no fim, porventura, alguma distribuição. [...]
A expansão do mercado como filosofia societal trabalhou, portanto, para o estreitamento do espaço público, para o estreitamento da democracia. O modelo liberal não ficou “aquém das expectativas”, não foi a sua suposta “ética” traída por alguns agentes de mercado. Não. Falhou redondamente e não pode ser “consertado”. Tem que ser abandonado, substituído por outro. [...]
Precisamos de um outro modelo de desenvolvimento, precisamos de um novo paradigma de governação democrática. O país sabe-o.
Sabem-no os homens e mulheres que todos os dias fazem os serviços públicos. Sabem que nas escolas, nos hospitais, nas instituições de apoio social, onde trabalham todos os dias, há uma crise que tem décadas e que se vive quotidianamente com o desinvestimento público. Sabem que há um discurso opressivamente dominante que favorece sempre a deslegitimação da coisa pública e a menorização da República.
E qual é esse modelo liberal que falhou redondamente e, como isso, deve ser abandonado? Quem lê o discurso de Ana Drago, fica em crer que a crise veio para Portugal porque o Estado saiu da economia.
É verdade que houve inúmeras privatizações desde 1989 e que Portugal é um país muito exposto ao exterior. Mas, ao contrário do que diz Ana Drago, a crise portuguesa não pode ser imputada ao liberalismo, quando a despesa do Estado atingiu quase metade do PIB. Só os impostos contabilizam-se nos 38%. Nunca a coisa pública gastou tanto para se sustentar.
Compreende-se que uma pessoa apaixonada pelas suas convicções troque alguns dados e vá contra a realidade. Mas a deputada não só sugeriu o contrário do que os dados dizem, ela afirmou-o assertivamente. Supondo que ela, enquanto representante eleita, conheça as estatísticas, atrevo-me a dizer que mentiu ao falar em “desinvestimento público”, quando na verdade tem havido sobre-investimento público.
Para Ana Drago, qual é então o modelo que deve ser substituído? Aquele modelo ultra-liberal em que as despesas públicas crescem numa média de 10% ao ano? Isso, no meu planeta, tem outro nome, “socialismo”.


