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Press Room: O que é que ele bebeu?

Janeiro 14, 2009

Público (vale a pena ver o vídeo):

Falando na tertúlia “125 minutos com Fátima Campos Ferreira”, que decorreu no Casino da Figueira da Foz, José Policarpo deixou um conselho às portuguesas quanto a eventuais relações amorosas com muçulmanos, afirmando: “Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam.”

Eu concordo plenamente que o papel da mulher na maioria dos países islâmicos é absolutamente repugnante. Também concordo que a intolerância de parte da comunidade islâmica se torna difícil de gerir. E que não devemos ceder um milímetro nas nossas liberdades e valores por causa de exigências de fanáticos. Mas não posso discordar mais da generalização, como se os muçulmanos fossem todos um bando de “lobos“, à espera de caçarem as jovens e inocentes donzelas católicas e de pulverizarem a sociedade ocidental – como se as mulheres não fossem ou não devessem ser capazes de tomar uma escolha informada na altura de se casarem, e como se os grupos imigrantes não se tendessem a assimilar às sociedades de acolhimento ao longo do tempo. Não há casamentos inter-religiosos felizes? Não há jovens muçulmanos perfeitamente integrados (inclusivé, axiologicamente) nas comunidades de acolhimento?

O que o Cardeal fez foi usurpar dois debates relevantes - o da forma como devemos lidar com uma ameaça externa (os extremismos) e o do como devemos integrar os muçulmanos que vivem no nosso território -, num sublime conselho às jovens, que faz lembrar um daqueles discursos segregacionistas do século passado. Aproveitando-se do medo e do desconhecimento, José Policarpo deixou claramente subentendida uma ideia de proibição ou de estigma negativo sobre casamentos inter-religiosos, e isso é totalmente abominável.

É todo o discurso autoritário e impreciso da Igreja que se nota nas declarações do Cardeal. Não se trata de nenhum engano, nem de um momento infeliz: o que ele disse é o que ele efectivamente pensa e defende. A mediatização inesperada fez as autoridades eclesiásticas recuarem, mas não parece que esse recuo seja a sua verdadeira posição na matéria. A Igreja vê as pessoas como joguetes, que “pertencem” a cada um dos jogadores, e não podem mudar de lado. Se algum se desvia das regras do jogo, é um alvo a abater.

O aviso torna-se curioso vindo de quem vem, sobretudo tendo em conta as referências machistas na Bíblia, e quando, provavelmente devido a isso, a Igreja Católica continua a recusar-se ordenar mulheres e trata historicamente o género feminino de uma forma manifestamente sexista – paradigma actual disto será o véu que as esposas dos chefes de Estado têm de usar quando visitam o Papa. Para além disso, a Igreja não tem muita autoridade moral para falar em intolerância: ou não há padres a serem excomungados só porque não concordam da orientação centralizadora do Vaticano? Eu, como a creio ter, sinto-me totalmente liberto para criticar e atacar violentamente o que se passa de mal nos países e cultura islâmicos. E para elogiar os bons exemplos.

A generalização dos muçulmanos, enfiando-os a todos no mesmo saco, é muito interessante, e creio que tem muito a ver com wishful thinking: não interessa retratar nem felicitar os casos bem sucedidos de apaziguamento religioso por parte dos muçulmanos. No plano interno, alerta-se para os “sarilhos” de um casamento misto; na política externa, a Igreja Católica continua a ser dos mais ferozes opositores à adesão da Turquia na UE, depois de esta ter passado por um conjunto de alterações estruturais no Estado e na sociedade. Os muçulmanos não só são o inimigo, como interessa que eles sejam o inimigo.

Um comentário

  1. [...] *Vide: O que é que ele bebeu? [...]



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