
Silêncios e palavras
Dezembro 15, 2008Hoje fui pagar contas. Água, gás, TV/Net. Enquanto esperava na fila da remodelada sala de atendimento das Águas de Coimbra, um aviso no plasma chamou-me a atenção. Pedia aos utentes paciência, já que os colaboradores da distribuidora de água estavam a receber formação para lidar com o novo software. Pouco depois, uma das “colaboradoras” levantou-se do seu balcão e chamou o seu superior. Da sala ao lado saiu um senhor com um ar bonacheirão, que se posicionou por trás da senhora, dando-lhe indicações num tom também ele bonacheirão. Pus-me a imaginar a vida daquele senhor – e do quanto eu detestaria ser um burocrata -. Todos os dias passados numa repartição, numa pequenez imensa, das 9 às 17. Todo aquele ar empoleirado. Toda aquela fluidez no discurso, no tom e na pose, reflexo de uma mediocridade e ineficiência sem limites. Todo o estilo provinciano, arcaico e hipócrita. Depois, reparei que ele sorria, e o seu sorriso fez-me lembrar o meu pai. Pedi desculpas silenciosas por o ter silenciosamente tratado daquela maneira. Julguei, e pior, julguei a priori (vulgo, preconceito). Afinal, era um homem que eu não conhecia, e que até sorria! Maldito espírito humano julgador e prepotente, o meu.
Mas eis que o senhor, como que ouvindo os meus lamentos, se apressou em descarregar a minha consciência, num acto de sacrifício. Colocado diante dos problemas informáticos que se punham perante a celebração de um contrato com um novo cliente (o programa informático não tinha uma terceira opção para a situação de um empreiteiro, que não era nem consumidor doméstico, nem pretendia estabelecer uma actividade comercial duradoura no local), o senhor virou-se para o cliente, e num rasgo exemplar para as suas subordinadas, disse: “Você havia de ter vindo era à tarde, que eu, na Segunda de manhã…”, ao que a fiel funcionária de atendimento juntaria: “…não está cá”. “Não estou cá”.