Volto a abrir as páginas dos blogues e dos media depois de alguns dias ocupados (e que vão tornar-se ainda mais nos próximos meses), e vejo notícias e comentários a umas palavras da líder do PSD. E comentários aos comentários às palavras da líder do PSD. E comentários aos comentários aos comentários às palavras da líder do PSD.
Que palavras? Ferreira Leite falava num almoço ou jantar (não sei qual dos dois se aplica, não me apetece rever as notícias em busca dessa informação balofa, era uma refeição, isso é certo), acerca da reforma na educação. Referindo-se àquilo que considera ser um erro do Governo neste processo – a hostilização dos professores – ironizou, com as seguintes palavras:
Até nem sei se não seria bom estar seis meses sem democracia para por tudo na ordem e depois voltar à democracia.
Isto, “provocando o riso dos que a ouviam hoje”, segundo o Jornal de Notícias. Ou seja, MFL estava a falar no autoritarismo que ela vê na forma como o Governo põe em prática a sua agenda, que ela acha dispensável.
O que se passou a seguir foi um autêntico despropósito. Diria mais: uma palhaçada. Não há outra palavra mais adequada para descrever o episódio que se gerou em torno das declarações de Ferreira Leite. Mas em que país é que vivemos?
Não se esperava outra coisa dos representantes do PS. É esse o seu papel: criticar tudo e mais alguma coisa no PSD, agarrando-se ao que puderem usar para denegrir a sua líder – estamos a menos de um ano das legislativas (veja-se o “profile” das intervenções políticas de Augusto Santos Silva, o cão-de-ataque do Governo, que afirmou que “existem fundadas dúvidas sobre o que a drª Ferreira Leite pensa e sente acerca da democracia“).
O que é um bocado chocante no PS é a utilização de Alberto Martins, sob o pretexto de ser líder da bancada parlamentar, para, com toda a sua dignidade de arauto da democracia (qual ironia, está hoje ele contra os alunos que atiram ovos à Ministra, quando o próprio fez parecido para se tornar herói por acaso da revolta de 1969), “julgar”, num tom fúnebre, Manuela Ferreira Leite uma ditadora. Que dirão agora os socialistas que tanto atacaram o Partido Republicano por ter escolhido a sua candidata a vice-presidente com base no seu sexo? Tenho a suspeita de que ficarão calados…
Mas é certamente assunto mais sério o tratamento que alguns media e bloggers deram a estas palavras descontextualizadas, como se fossem para ser tomadas à letra, tirando a partir daí conclusões (ou levando os espectadores a tirar essas conclusões) sobre o carácter político de Ferreira Leite. Veja-se o que se fez na SIC-Notícias, cortando as “polémicas” declarações de MFL do seu contexto – o que lhes altera completamente o sentido (contraste-se com a cobertura feita pela TVI).
Se houve realmente quem não compreendesse o que Manuela Ferreira Leite queria dizer, este fait-divers bem vem atestar o péssimo estado dos sistemas de ensino básico, secundário e superior, que nem conseguiram ensinar o significado de uma figura de estilo tão elementar quanto a ironia aos seus ex-alunos.
Caso contrário, arrogo-me dizer que há uns No Name Boys do PS infiltrados por aí, dispostos a fazer tudo o que esteja ao seu alcance pela manutenção dos socialistas em São Bento, mesmo que isso signifique deturpar o conteúdo da informação e, não será exagerado dizer, mentir. Nesse caso, o Partido fica a dever a estes senhores uns quantos salários.
Podemos discordar do pensamento de Ferreira Leite, segundo o qual, “em democracia, efectivamente, não se pode hostilizar uma classe profissional, para de seguida ter a opinião pública contra essa classe profissional, e então depois entrar a reformar – porque, nessa altura, estão eles todos contra. Não é possível fazer uma reforma da justiça sem os juízes, fazer uma reforma da saúde sem os médicos“.
MFL realmente disse, antes dessa explicação, que “Eu não acredito em reformas, quando se está em democracia…“, mas vai um longo caminho daí a colocar, por baixo da fotografia dela, a expressão “a líder do PSD diz não acreditar “em reformas, quando se está em democracia“” (Público).
O que MFL não acredita, portanto (é preciso frisar muito isto para os infelizes que parecem não ter tido Língua Portuguesa no seu percurso académico), é nas reformas segundo a forma escolhida pelo Governo – ou seja, “eu digo como é que é e faz-se“, o que, segundo ela, só é possível em ditadura. Daí a “proposta”: se se quer fazer isso, que se suspenda a democracia por seis meses.
[Nota: o Público, de facto, apresenta todas estas citações, mas sempre referindo-se a elas como se se tratassem de afirmações convictas de Ferreira Leite, o que já se demonstrou incorrecto. Mais avisada será a cobertura dos acontecimentos feita pelo DN - que tanto tem sido acusado de parcialidade a favor do Governo -, que cita integralmente e coloca a questão da ironia:
Um tiro no pé? Ou um exercício de ironia fina? Manuela Ferreira Leite causou ontem um turbilhão político dentro e fora do PSD por causa de um discurso proferido num almoço organizado pela Câmara de Comércio Americana em Portugal, num hotel de Lisboa.
"Eu não acredito em reformas, quando se está em democracia [pausa]. Quando não se está em democracia é outra conversa, eu digo como é que é e faz-se [pausa]. E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia”, afirmou Manuela Ferreira Leite, perante alguns sorrisos (poucos) dos presentes na sala do hotel. “Agora, em democracia efectivamente não se pode hostilizar uma classe profissional para de seguida ter a opinião pública contra essa classe profissional e então depois entrar a reformar”, continuou a líder do PSD.]
Eu, pessoalmente, não vejo forma de fazer uma verdadeira reforma sem se enfrentar as forças de bloqueio que, naturalmente, reagirão a quaisquer alterações estruturantes. Coisa que, note-se, não é sinónimo de enxovalhar quem quer que seja, e é isso que a líder do PSD critica.
Estar disposto a esse combate é a base, é a fundação sobre a qual se edifica a mudança – se bem que seja possível criar a ilusão de reforma, atacando essas forças, para daí dizer que a reacção delas é sintoma da existência de reformas, que é o que o Governo parece ter vindo a fazer as mais das vezes (aliás, Ferreira Leite fala nisso, quando se refere à justiça e ao discurso de tomada de posse de José Sócrates).
Mas discutir as ideias da líder do PSD sobre a forma de se fazerem reformas é muito diferente de se afirmar que ela anda por aí a questionar a democracia. O que ela não fez.
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Adenda: O Miguel Botelho Moniz fala no erro de MFL em ter-se permitido a esta situação, pondo-se a jeito. Concordo que, de facto, houve um erro táctico. Em plena crise política, com o Governo encurralado pelos professores, MFL deveria, talvez, ter ficado no seu canto por estes tempos, seguindo a máxima: “nunca interrompas um inimigo a meio do seu erro”. Seria de esperar que qualquer eventual “escorregadela” ou situação dúbia fosse aproveitada para a encostar à parede – sobretudo, tendo em conta a hostilidade da parte de alguns media, como ela própria já havia reconhecido -. O que veio a acontecer: o PS encontrou, com a ajuda (indispensável) de alguns media, uma cobertura para a Ministra poder recuar na questão da avaliação dos professores, como lembra o Bruno Alves. De qualquer forma, é certo que MFL podia ter evitado esta situação, mas é sempre fácil julgar no dia seguinte.