Cândida Almeida ainda não percebeu o significado do princípio da separação de poderes (nem das consequências da democracia ou da sociedade da informação). Em entrevista ao DN, a Directora do DCIAP afirma que uma comissão parlamentar de inquérito ao caso BPN seria negativa para a investigação. Note-se que esse instrumento é da exclusiva responsabilidade do órgão de controlo Parlamento. Num momento em que os magistrados se queixam de interferências do poder político na sua esfera, este ataque a uma das mais essenciais funções da Assembleia da República (a de fiscalizar) não lhes cai nada bem.
Mais: Cândida Almeida afirma que esse tipo de instrumentos públicos são “fofoquices”, e que a opinião pública se deve preocupar em ver os casos resolvidos. Mas uma questão se levanta: com segredo de justiça e todos os impedimentos que Almeida defende à publicidade dos processos, como é que a opinião pública pode saber se os casos foram bem resolvidos? É que estamos em democracia, caso a sr.ª não se tenha apercebido, e o parâmetro máximo de controlo do que é bem feito é a opinião pública, e não uma aristocracia autocrática – de nobres, padres ou magistrados.
Aqui fica o extracto da entrevista:
Dr.ª Cândida Almeida, é bom ou mau para o processo que, paralelamente à investigação, decorra uma comissão de inquérito parlamentar?
Com o devido respeito, porque isso é uma questão política a que têm de responder. Com o devido respeito por todos, eu acho que, havendo, e penso que já houve, essas decisões, havendo uma investigação criminal e sujeita ao segredo de justiça, que é o que nós queremos e pedimos, haver outra coisa qualquer, pública ou semipública, e no caso, um inquérito parlamentar, do meu ponto de vista puramente técnico-jurídico, é negativo.
Mas compreende que, em termos de opinião pública, era difícil passar sem esse inquérito parlamentar?
Gostaria que a opinião pública dissesse se prefere saber essas, digamos, fofoquices, entre aspas, e peço desculpa pela palavra, ou se gostaria ver a justiça feita e os criminosos condenados, e os inocentes inocentados.
Nota: Fica um comentário a toda esta ideia de sacralidade do segredo de justiça que perpassa o pensamento de Cândida Almeida. Num momento em se vive a expansão da sociedade da informação, pensar que se pode esconder do público as “fofoquices” não é conservadorismo, é uma estupidez.


