Volvidos dois meses, a resposta a esta pergunta parece ter aparecido.
Arquivo de Outubro, 2008

Late Blog Room: Crisis Bias
Outubro 31, 2008Paulo Gorjão, Vox Pop:
Manuel Alegre recupera o conceito de Estado estratega que lançou em 2004. Estado estratega, na prática, é o velho Estado interventor, mas com nova roupa e com maquilhagem retocada. Sem entrar em detalhes — e o diabo está sempre nos detalhes — Alegre aproveita para surfar na onda da crise financeira.
[...]
Como leigo confesso que apenas consigo perceber que houve uma falha grave nos mecanismos de regulação. A partir daí extrapolar que o Estado mínimo deve dar lugar ao Estado máximo – ou algo parecido — parece-me um leap of faith ideológico que a observação não sustenta.

A lição de Ferreira Leite
Outubro 27, 2008Reitero o que disse no post anterior (e que ficou um pouco ofuscado):
No contexto da crise internacional, Manuela Ferreira Leite está a dar uma lição de economia e de gestão responsável ao Governo.
Assim, realmente vale a pena ser do PSD.

A semana Ferreira Leite
Outubro 27, 2008Assisti esta noite à entrevista do Ministro Pedro Silva Pereira a Mário Crespo. Depois de defender a cooperação institucional (dando o argumento de que a querela do PR é com a AR e não Governo, como se estes dois últimos órgãos não fossem liderados pelo mesmo partido político), o Ministro tentou rebater as críticas de Ferreira Leite ao Governo. Tentou, porque não conseguiu.
A verdade é que MFL está a destacar-se fortemente com a crise. As suas credenciais académicas (e experiência governativa) sempre foram o seu ponto mais forte, mas isso não basta para ganhar eleições. É a sua demonstração prática que mais importa – depois, então, contará verificar a base de credibilidade de quem demonstra essas habilidades (o que passa pela tal experiência).
Rebelo de Sousa alertou para a necessidade de a líder falar mais na crise e em apresentar soluções. Ferreira Leite seguiu o repto e preparou um conjunto de propostas e de críticas ao Governo, ao mesmo tempo em que se desdobrava em entrevistas e conferências de imprensa. E resultou.
A mensagem do PSD passou para as pessoas: o Governo é o responsável pela vulnerabilidade do país à crise e apresenta medidas populistas, o PSD tem propostas mas não cede ao populismo. A estratégia resulta tanto mais quanto o Governo prefere manter um tabu sobre a economia – com a ajuda de um tampão chamado Orçamento do Estado para 2009, onde os números surgem desmesuradamente optimistas, como se a crise financeira não fosse ter quaisquer efeitos na economia -, limitando-se a prescrever medidas para o sector financeiro e outras tantas com fins eleitoralistas. Paradigmático é o episódio em torno do aumento do salário mínimo: Ferreira Leite teve a coragem de dizer que não o faria perante o cenário que se avizinha, enquanto o PS patina perante os dados que demonstram que os efeitos dessa medida nas pequenas empresas será devastador.
A contra-resposta do Governo surge amputada, porque os principais responsáveis na Economia e Finanças não podem reagir (já que não reconhecem o cenário de recessão). Apenas os porte-parole aparecem, no velho registo politiqueiro, para criticar, sem grande legitimidade na área económica, o que definem como as obsessões de MFL em resolver problemas específicos. Perante isto, as declarações dela, que, diga-se, têm um grande problema na forma, assemelham-se a uma lição. É uma economista a apresentar propostas económicas que aparece a debater com políticos que apresentam propostas sociais. O PS e o PSD falam línguas diferentes.
O sucesso além-fronteiras de MFL é reconvertível internamente. Os críticos internos que tanto lhe atacaram o “silêncio” ficam sem margem para defender agora que ela deveria ter estado calada. E o argumento de que Ferreira Leite deveria antes apontar espingardas à crise e à questão de saber quem será melhor a combatê-la (em vez de criticar a actuação económica global do Governo) não parece valer quando faltam muitos meses para a crise se abater sobre os portugueses e outros tantos para as eleições, e tendo em conta que essa estratégia poderá minorar o previsível arremesso de culpas, por parte do PS, de toda a situação económica da legislatura para a crise internacional.
Em suma, Manuela Ferreira Leite tem sabido aproveitar uma oportunidade de fazer valer a sua grande vantagem pessoal contra José Sócrates: experiência e credenciais económicas. E o Governo tem sofrido as consequências do excesso de auto-confiança perante uma enorme janela de escapatória às suas responsabilidades no estado da economia. Resta saber se, ao longo do próximo ano, este quadro se manterá. Se sim, penso que pouco (muito pouco) dificultará o caminho de MFL a S. Bento.
Nota: tem sido interessante ver a corrida aos media por parte dos líderes dos dois principais partidos – Sócrates não se deu a esse trabalho contra Menezes. E parece que o tom jocoso em relação aos adversários acabou. Boas notícias para quem gosta de ver o debate político elevar o seu nível.

Blog Room: A felicidade dos pobres ou o lado bom das coisas más
Outubro 26, 2008Alberto Gonçalves (nem digo o nome do jornal, senão daqui a nada ainda me acusam de estar a ser pago pelos senhores do marketing agressivo…):
O que nos poderá proteger da crise internacional é, em parte, o que também “salva” o Terceiro Mundo: a crise interna, que resistiu, serena e patriótica, a anos de prosperidade ocidental. Portugal não se arrisca a cair na indigência porque, com o desemprego, a produtividade, o endividamento, as leis do trabalho e a estatização da economia que ostenta, Portugal era indigente bem antes de Wall Street se constipar.
Misteriosamente, o Governo ignora os sinais palpáveis da crise interna e ataca os sinais hipotéticos da externa. Muito misteriosamente, fá-lo mediante o reforço dos factores que nos conduziram, sem ajudas estrangeiras, à pindérica situação actual: mais Estado, mais “investimento” público, desresponsabilização dos cidadãos incumpridores, esfolamento dos cumpridores e bazófia, imensa bazófia em volta da “modernidade”, dos “desígnios” e dos “desafios”.
Não é à toa que a desgraça dos outros não nos preocupa. À toa andamos nós, no meio de uma desgraça particular que promete ser comprida, escaldada e sem açúcar.

Press Room: a entrevista mais politiqueira que já vi
Outubro 26, 2008Para quem ainda não percebeu do que estou a falar quando classifico o nosso PM de “medíocre”. Extracto da entrevista publicada hoje no DN:
Cavaco Silva, em 1991, mais do que pedir, exigiu uma maioria absoluta para governar, porque entendia
(Interrompendo) Eu nunca exigirei nada a ninguém! Mas deixe-me dizer-lhe o seguinte: eu estou é absolutamente concentrado na governação. É isso que os portugueses esperam de mim.
Isso sabemos, mas estamos a discutir política agora
Pois, pois, mas não ponham o carro à frente dos bois. Isso virá daqui a uns meses. Aliás, seria irresponsável da minha parte se estivesse a pensar nisso, ainda por cima num momento destes.
Deixe-me, então, fazer a pergunta de forma diferente: se os portugueses lhe pedirem que governe, não com maioria absoluta, mas com uma vitória relativa, o senhor não os abandonará?
Eu, mais uma vez, não quero pronunciar-me sobre cenários. Mas não faço chantagem com a vontade dos portugueses. Nunca fiz nem farei. Um político quando se candidata tem de fazer aquilo que os eleitores decidem que ele faça. Quando tive maioria absoluta, vi isso claramente como um sinal dos eleitores no sentido de que o PS tinha uma responsabilidade para com eles: conduzir as reformas com base nas quais se candidatou. Quer dizer, a forma de estarmos à altura dessa responsabilidade era não deixar ficar tudo na mesma.
Depois, sobre a data das eleições autárquicas:
As eleições europeias serão em Junho, as legislativas serão marcadas, presume-se, para Outubro e depois as autárquicas são marcadas pelo Governo. O senhor vai marcá-las ao mesmo tempo que as legislativas, poupando algum dinheiro de campanhas com isso, ou vai insistir em tê-las em tempos diferentes?
Acho mal marcar as eleições legislativas no mesmo dia das autárquicas. E acho mal por uma razão muito simples, é que as eleições locais têm dinâmicas locais. Se nós marcamos as eleições legislativas no mesmo dia das autárquicas, isso quer dizer que as disputas nacionais se vão impor às disputas locais. Isso é não dar um contributo para que a democracia local respire. Seria negativo para a democracia portuguesa.
Portanto está decidido. Como é o senhor quem terá de as marcar
Não, não, desculpe, isso não está nas minhas mãos. Terei naturalmente, e como perceberão, de falar com os partidos antes de marcar as eleições autárquicas. Falarei também com o Presidente da República.
Mas é o senhor quem tem de as marcar. Obviamente
Sim, mas tenho de ouvir os partidos. Estou a dar agora o meu ponto de vista, porque isso parece–me ser uma questão política da maior importância. Repare: em muitos concelhos há pessoas que querem apoiar um presidente da câmara do PS e que querem nas eleições nacionais votar no PSD.
E podem fazê-lo, mesmo com as eleições no mesmo dia.
Podem, mas estraga a dinâmica das candidaturas. Já fiz campanhas autárquicas. Eu fui sempre candidato na Covilhã à Assembleia Municipal durante muito tempo. É bom que haja um período em que só se discute na Covilhã, como noutros concelhos, eleições locais.
Mesmo que haja um preço a pagar por isso, em termos económicos, obviamente?
Um preço a pagar?
Duas campanhas é mais caro que uma
Sim, é mais caro, mas a democracia custa dinheiro.
Ou seja, a crise ainda não obriga a tanto?
Com franqueza, quando estivermos a discutir já a necessidade de poupar esse dinheiro, estaremos mal. Não, [a crise] não obriga a tanto. Não é que não tenhamos vontade de gastar o menos dinheiro possível, mas acho que isso seria prejudicial em termos democráticos. Imagine o que era se se realizasse um jantar num concelho para uma candidatura da presidência da câmara do PS com pessoas do PSD que querem apoiar esse candidato do PS e se eu lá estivesse também. Seria inconveniente para eles
São duas lógicas diferentes?
Duas lógicas tão diferentes. Acho que isso seria mal recebido até pelas pessoas.
Mas já aconteceu haver eleições conjuntas.
Entre eleições legislativas e europeias.
Essa lógica também é diferente.
Mas são nacionais, são nacionais. Nunca houve eleições nacionais com eleições locais, e acho que isso seria prejudicial para a nossa democracia. Mas, enfim, é apenas o meu ponto de vista.
Finalmente, sobre os casamentos homossexuais:
No último congresso disse que os casamentos homossexuais iriam constar do programa eleitoral do PS às próximas eleições. Mantém?
Eu não disse isso. Nunca disse, nem disse sequer no programa eleitoral.
Diz-se que disse.
Diz-se que disse, pois. Mas não disse.
Então, mas, já agora, o que é que disse?
O que eu disse na campanha eleitoral, quando me perguntaram sobre o assunto, é que isso não fazia parte da agenda política do PS, nem sentia uma necessidade social para responder a isso, nem o PS se candidatava para fazer apenas experimentalismo político e com ideia de fazer mudanças fracturantes. Não era para isso que o PS se candidatava. Nessa altura, aliás, tive oportunidade de dizer o que pensava. Eu sou a favor, toda a gente sabe isso. Sou muito liberal nesse domínio, e sempre o disse. Mas eu procuro conter aquilo que são os meus caprichos. Sou o líder de um partido, e de um partido que tem uma ambição de governar. E por isso não me sinto legitimado para fazer uma mudança no País que não estava expressa no nosso programa eleitoral.
Mas se o congresso do PS discutir isso no princípio do ano ?
Foi o que expliquei: nunca discutimos isso no partido, nunca discutimos isso na sociedade.
Neste momento não se compromete com essa questão para o programa para as próximas eleições?
Veremos, veremos! Não me quero comprometer com nada a não ser com um debate dentro do PS e na sociedade. Reparem, eu não lidero um pequeno partido. Admito que os pequenos partidos possam ter agendas para responder apenas aos seus simpatizantes. O PS é um partido que aspira a ter um conjunto de propostas nas quais uma grande maioria [de pessoas] se possa rever. Eu convivo bem dentro do partido com pessoas que pensam de formas diferentes em muitas matérias. E para acabar: essa questão não foi suficientemente discutida no País para agora um parlamento dizer, de um dia para o outro, que vai aprovar essa lei.
Mas eu não estava a falar deste processo passado, estava a falar do futuro
Quanto ao futuro, como digo, sou a favor, tenho essa posição há muito tempo.
Mas não se compromete que isso esteja no programa eleitoral?
Não me comprometo, porque é preciso envolver muito mais pessoas. Nunca ouvi outras pessoas. Nunca discutimos isso no Secretariado, na Comissão Política, na Comissão Nacional, no Congresso Há momentos para tudo.
Isto podia sair de um filme de comédia ou de um qualquer programa dos gatos fedorentos que andam por aí a gozar com os políticos. Mas não. É só o Primeiro-Ministro de Portugal. Para ver o estado a que chegámos.
E, puxando a brasa à minha sardinha, alguém acredita mesmo que Santana, Passos ou Leite responderiam neste tipo de registo? Ou, respondendo, que ficariam impunes? É só para perceber o diferente nível de exigência conforme se trata de militantes do PS e do PSD – é claro que, como o PS é “social” e “defende” os pobrezinhos, até se deixa passar algumas faltas (como aquele aluno que tem tudo certinho mas não tem grande qualidade académica, e o professor lá lhe dá um jeito). De qualquer forma, aqui estamos nós para lembrar.
* Lendo esta entrevista, lembrei-me daquele diálogo imaginado entre Barack Obama e o Presidente Jed Bartlet da série West Wing (via Farmácia Central).


oi só impressão minha ou Maria Flôr Pedroso riu-se dos tiques do professor no final das Escolhas de Marcelo desta noite?