Arquivo de Outubro, 2008

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O que se passa na linha do Tua? (3)

Outubro 31, 2008

Volvidos dois meses, a resposta a esta pergunta parece ter aparecido.

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Late Blog Room: Crisis Bias

Outubro 31, 2008

Paulo Gorjão, Vox Pop:

Manuel Alegre recupera o conceito de Estado estratega que lançou em 2004. Estado estratega, na prática, é o velho Estado interventor, mas com nova roupa e com maquilhagem retocada. Sem entrar em detalhes — e o diabo está sempre nos detalhes — Alegre aproveita para surfar na onda da crise financeira.

[...]

Como leigo confesso que apenas consigo perceber que houve uma falha grave nos mecanismos de regulação. A partir daí extrapolar que o Estado mínimo deve dar lugar ao Estado máximo – ou algo parecido — parece-me um leap of faith ideológico que a observação não sustenta.

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Nem tudo está decidido nos EUA

Outubro 30, 2008

Os analistas e estrategas políticos tendem a forçar um certo determinismo nas relações e a pretender uma cognoscibilidade de todas as variáveis, e como tal, dos resultados (o que, de resto, acaba por ser uma característica comum nos seres humanos). Mas nem sempre as variáveis podem ser percepcionadas ou racionalizáveis, pelo menos em tempo útil. Quando o jovem senador Barack Obama começou a vencer nas primárias democratas a favorita Hillary Clinton, ninguém conseguia entender bem o que se estava a passar, ou qual dos dois chegaria a bom porto. Num gesto de honestidade, questionado pelo pivô, um dos comentadores da CNN dizia simplesmente qualquer coisa do género “we don’t know what’s going on“, enquanto os seus pares continuavam com o encher-de-chouriços que qualquer orador razoável consegue fazer, levantando dúvidas e problemas balofos.

Esse determinismo diz que Barack Obama já venceu as eleições de 4 de Novembro. Porém, há-que ter muita cautela. Desde logo, porque as sondagens podem não traduzir a real vontade do eleitor quando confrontado com o boletim de voto (e, antes disso, com a escolha entre ir ou não votar). Veja-se o caso de John Major no Reino Unido. Depois, tem de se ter atenção ao facto de as sondagens largamente publicitadas na imprensa, e que dão vantagens de quase dois dígitos a Obama, não terem em conta o comportamento eleitoral prévio dos inquiridos, o que beneficia o candidato democrata – a sua base inicial de apoio são os jovens, que tendem a não votar, e estes resultados também são obtidos à custa do apoio de alguns republicanos, ou simpatizantes do GOP, que podem facilmente abster-se.

A Gallup, que faz dois tipos de sondagens, tendo e não em conta o “comportamento eleitoral prévio” dos potenciais eleitores, revela que a vantagem de Obama numa e noutra é de, respectivamente, 5 e 7%, um número bastante próximo. Mas, vendo o gráfico com a evolução de ambas, a diferença tem sido muito significativa: se nos últimos três dias, no “expanded model”, Barack Obama teve vantagens entre os 7 e os 10 pontos, no “traditional model” essa vantagem cifrou-se entre os 5 e os 2%.

Há dias, um vídeo da Gallup falava nas raras situações em que um candidato em desvantagem nas sondagens acabava por ganhar no voto popular, mencionando casos como o de Ronald Reagan em 1980.

O que quer tudo isto dizer?

1. Que Barack Obama não tem a vitória garantida que alguns já propagam. No entanto, será correcto afirmar que, neste momento, as probabilidades contam (muito) a favor dele, e que (muito) dificilmente o eleitorado se virará para John McCain. É isso o que se pode dizer, e não mais.

2. Que o comportamento do eleitorado não pode ser matematicamente previsto (pelo menos, por enquanto…). Há uma enorme margem de subjectividade adjacente que torna impossível ter-se sempre uma noção pormenorizada do que se está a passar e dos resultados de cada facto que ocorre e de cada acção que se toma. Embora, é certo, se possa prever, em termos razoavelmente concretos, e fazendo algumas presunções, os rumos de uma eleição.

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Blog Room: o sucesso “comum” de um “elitista”

Outubro 29, 2008

Nuno Gouveia, Eleições Americanas 2008:

Barack Obama, um político acima da média, está a provar que estudou bem as derrotas dos seus antecessores. Em primeiro lugar, porque tem conseguido ter um discurso próximo do cidadão comum. Apesar de raramente sair da mensagem pré-definida, e de demonstrar pouca espontaneidade, esse controlo e segurança que exibe tem convencido os eleitores preocupados com a situação económica. Depois de oito anos da Administração Bush, os eleitores culpam os republicanos pela crise. E Obama tem oferecido um discurso alternativo, com um grau de sustentação que agrada ao eleitorado de centro-direita, descontente com o rumo da América. Os seus antecessores tinham feito campanhas eleitorais muito elitistas, longe dos valores da América profunda. Mas à excepção do erro no caso “Bittergate”, Obama tem sido exemplar.

Nuno Gouveia diz também que a escolha de Sarah Palin afastou o eleitorado de centro. Não concordo. De facto, Palin tem, sobretudo nos últimos tempos, contribuído para o insucesso de McCain nas sondagens, mas isso deve-se a um conjunto de episódios, como o dos custos do guarda-fato ou o da crispação entre a Governadora e a cúpula da campanha. E, é claro, à grande intolerância da imprensa (que é verídica, sejam quais forem os motivos). Não a questões ideológicas – ainda que haja um episódio (o dos mosquitos-da-fruta) em que isso se evidencie.

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A lição de Ferreira Leite

Outubro 27, 2008

Reitero o que disse no post anterior (e que ficou um pouco ofuscado):

No contexto da crise internacional, Manuela Ferreira Leite está a dar uma lição de economia e de gestão responsável ao Governo.

Assim, realmente vale a pena ser do PSD.

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A semana Ferreira Leite

Outubro 27, 2008

Assisti esta noite à entrevista do Ministro Pedro Silva Pereira a Mário Crespo. Depois de defender a cooperação institucional (dando o argumento de que a querela do PR é com a AR e não Governo, como se estes dois últimos órgãos não fossem liderados pelo mesmo partido político), o Ministro tentou rebater as críticas de Ferreira Leite ao Governo. Tentou, porque não conseguiu.

A verdade é que MFL está a destacar-se fortemente com a crise. As suas credenciais académicas (e experiência governativa) sempre foram o seu ponto mais forte, mas isso não basta para ganhar eleições. É a sua demonstração prática que mais importa – depois, então, contará verificar a base de credibilidade de quem demonstra essas habilidades (o que passa pela tal experiência).

Rebelo de Sousa alertou para a necessidade de a líder falar mais na crise e em apresentar soluções. Ferreira Leite seguiu o repto e preparou um conjunto de propostas e de críticas ao Governo, ao mesmo tempo em que se desdobrava em entrevistas e conferências de imprensa. E resultou.

A mensagem do PSD passou para as pessoas: o Governo é o responsável pela vulnerabilidade do país à crise e apresenta medidas populistas, o PSD tem propostas mas não cede ao populismo. A estratégia resulta tanto mais quanto o Governo prefere manter um tabu sobre a economia – com a ajuda de um tampão chamado Orçamento do Estado para 2009, onde os números surgem desmesuradamente optimistas, como se a crise financeira não fosse ter quaisquer efeitos na economia -, limitando-se a prescrever medidas para o sector financeiro e outras tantas com fins eleitoralistas. Paradigmático é o episódio em torno do aumento do salário mínimo: Ferreira Leite teve a coragem de dizer que não o faria perante o cenário que se avizinha, enquanto o PS patina perante os dados que demonstram que os efeitos dessa medida nas pequenas empresas será devastador.

A contra-resposta do Governo surge amputada, porque os principais responsáveis na Economia e Finanças não podem reagir (já que não reconhecem o cenário de recessão). Apenas os porte-parole aparecem, no velho registo politiqueiro, para criticar, sem grande legitimidade na área económica, o que definem como as obsessões de MFL em resolver problemas específicos. Perante isto, as declarações dela, que, diga-se, têm um grande problema na forma, assemelham-se a uma lição. É uma economista a apresentar propostas económicas que aparece a debater com políticos que apresentam propostas sociais.  O PS e o PSD falam línguas diferentes.

O sucesso além-fronteiras de MFL é reconvertível internamente. Os críticos internos que tanto lhe atacaram o “silêncio” ficam sem margem para defender agora que ela deveria ter estado calada. E o argumento de que Ferreira Leite deveria antes apontar espingardas à crise e à questão de saber quem será melhor a combatê-la (em vez de criticar a actuação económica global do Governo) não parece valer quando faltam muitos meses para a crise se abater sobre os portugueses e outros tantos para as eleições, e tendo em conta que essa estratégia poderá minorar o previsível arremesso de culpas, por parte do PS, de toda a situação económica da legislatura para a crise internacional.

Em suma, Manuela Ferreira Leite tem sabido aproveitar uma oportunidade de fazer valer a sua grande vantagem pessoal contra José Sócrates: experiência e credenciais económicas. E o Governo tem sofrido as consequências do excesso de auto-confiança perante uma enorme janela de escapatória às suas responsabilidades no estado da economia. Resta saber se, ao longo do próximo ano, este quadro se manterá. Se sim, penso que pouco (muito pouco) dificultará o caminho de MFL a S. Bento.

Nota: tem sido interessante ver a corrida aos media por parte dos líderes dos dois principais partidos – Sócrates não se deu a esse trabalho contra Menezes. E parece que o tom jocoso em relação aos adversários acabou. Boas notícias para quem gosta de ver o debate político elevar o seu nível.

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Insólitos (7.0)

Outubro 27, 2008

Foi só impressão minha ou Maria Flôr Pedroso riu-se dos tiques do professor no final das Escolhas de Marcelo desta noite?

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Blog Room: A felicidade dos pobres ou o lado bom das coisas más

Outubro 26, 2008

Alberto Gonçalves (nem digo o nome do jornal, senão daqui a nada ainda me acusam de estar a ser pago pelos senhores do marketing agressivo…):

O que nos poderá proteger da crise internacional é, em parte, o que também “salva” o Terceiro Mundo: a crise interna, que resistiu, serena e patriótica, a anos de prosperidade ocidental. Portugal não se arrisca a cair na indigência porque, com o desemprego, a produtividade, o endividamento, as leis do trabalho e a estatização da economia que ostenta, Portugal era indigente bem antes de Wall Street se constipar.

Misteriosamente, o Governo ignora os sinais palpáveis da crise interna e ataca os sinais hipotéticos da externa. Muito misteriosamente, fá-lo mediante o reforço dos factores que nos conduziram, sem ajudas estrangeiras, à pindérica situação actual: mais Estado, mais “investimento” público, desresponsabilização dos cidadãos incumpridores, esfolamento dos cumpridores e bazófia, imensa bazófia em volta da “modernidade”, dos “desígnios” e dos “desafios”.

Não é à toa que a desgraça dos outros não nos preocupa. À toa andamos nós, no meio de uma desgraça particular que promete ser comprida, escaldada e sem açúcar.

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Press Room: a entrevista mais politiqueira que já vi

Outubro 26, 2008

Para quem ainda não percebeu do que estou a falar quando classifico o nosso PM de “medíocre”. Extracto da entrevista publicada hoje no DN:

Cavaco Silva, em 1991, mais do que pedir, exigiu uma maioria absoluta para governar, porque entendia…

(Interrompendo) Eu nunca exigirei nada a ninguém! Mas deixe-me dizer-lhe o seguinte: eu estou é absolutamente concentrado na governação. É isso que os portugueses esperam de mim.

Isso sabemos, mas estamos a discutir política agora…

Pois, pois, mas não ponham o carro à frente dos bois. Isso virá daqui a uns meses. Aliás, seria irresponsável da minha parte se estivesse a pensar nisso, ainda por cima num momento destes.

Deixe-me, então, fazer a pergunta de forma diferente: se os portugueses lhe pedirem que governe, não com maioria absoluta, mas com uma vitória relativa, o senhor não os abandonará?

Eu, mais uma vez, não quero pronunciar-me sobre cenários. Mas não faço chantagem com a vontade dos portugueses. Nunca fiz nem farei. Um político quando se candidata tem de fazer aquilo que os eleitores decidem que ele faça. Quando tive maioria absoluta, vi isso claramente como um sinal dos eleitores no sentido de que o PS tinha uma responsabilidade para com eles: conduzir as reformas com base nas quais se candidatou. Quer dizer, a forma de estarmos à altura dessa responsabilidade era não deixar ficar tudo na mesma.

Depois, sobre a data das eleições autárquicas:

As eleições europeias serão em Junho, as legislativas serão marcadas, presume-se, para Outubro e depois as autárquicas são marcadas pelo Governo. O senhor vai marcá-las ao mesmo tempo que as legislativas, poupando algum dinheiro de campanhas com isso, ou vai insistir em tê-las em tempos diferentes?

Acho mal marcar as eleições legislativas no mesmo dia das autárquicas. E acho mal por uma razão muito simples, é que as eleições locais têm dinâmicas locais. Se nós marcamos as eleições legislativas no mesmo dia das autárquicas, isso quer dizer que as disputas nacionais se vão impor às disputas locais. Isso é não dar um contributo para que a democracia local respire. Seria negativo para a democracia portuguesa.

Portanto está decidido. Como é o senhor quem terá de as marcar…

Não, não, desculpe, isso não está nas minhas mãos. Terei naturalmente, e como perceberão, de falar com os partidos antes de marcar as eleições autárquicas. Falarei também com o Presidente da República.

Mas é o senhor quem tem de as marcar. Obviamente…

Sim, mas tenho de ouvir os partidos. Estou a dar agora o meu ponto de vista, porque isso parece–me ser uma questão política da maior importância. Repare: em muitos concelhos há pessoas que querem apoiar um presidente da câmara do PS e que querem nas eleições nacionais votar no PSD.

E podem fazê-lo, mesmo com as eleições no mesmo dia.

Podem, mas estraga a dinâmica das candidaturas. Já fiz campanhas autárquicas. Eu fui sempre candidato na Covilhã à Assembleia Municipal durante muito tempo. É bom que haja um período em que só se discute na Covilhã, como noutros concelhos, eleições locais.

Mesmo que haja um preço a pagar por isso, em termos económicos, obviamente?

Um preço a pagar?

Duas campanhas é mais caro que uma…

Sim, é mais caro, mas a democracia custa dinheiro.

Ou seja, a crise ainda não obriga a tanto?

Com franqueza, quando estivermos a discutir já a necessidade de poupar esse dinheiro, estaremos mal. Não, [a crise] não obriga a tanto. Não é que não tenhamos vontade de gastar o menos dinheiro possível, mas acho que isso seria prejudicial em termos democráticos. Imagine o que era se se realizasse um jantar num concelho para uma candidatura da presidência da câmara do PS com pessoas do PSD que querem apoiar esse candidato do PS e se eu lá estivesse também. Seria inconveniente para eles…

São duas lógicas diferentes?

Duas lógicas tão diferentes. Acho que isso seria mal recebido até pelas pessoas.

Mas já aconteceu haver eleições conjuntas.

Entre eleições legislativas e europeias.

Essa lógica também é diferente.

Mas são nacionais, são nacionais. Nunca houve eleições nacionais com eleições locais, e acho que isso seria prejudicial para a nossa democracia. Mas, enfim, é apenas o meu ponto de vista.

Finalmente, sobre os casamentos homossexuais:

No último congresso disse que os casamentos homossexuais iriam constar do programa eleitoral do PS às próximas eleições. Mantém?

Eu não disse isso. Nunca disse, nem disse sequer no programa eleitoral.

Diz-se que disse.

Diz-se que disse, pois. Mas não disse.

Então, mas, já agora, o que é que disse?

O que eu disse na campanha eleitoral, quando me perguntaram sobre o assunto, é que isso não fazia parte da agenda política do PS, nem sentia uma necessidade social para responder a isso, nem o PS se candidatava para fazer apenas experimentalismo político e com ideia de fazer mudanças fracturantes. Não era para isso que o PS se candidatava. Nessa altura, aliás, tive oportunidade de dizer o que pensava. Eu sou a favor, toda a gente sabe isso. Sou muito liberal nesse domínio, e sempre o disse. Mas eu procuro conter aquilo que são os meus caprichos. Sou o líder de um partido, e de um partido que tem uma ambição de governar. E por isso não me sinto legitimado para fazer uma mudança no País que não estava expressa no nosso programa eleitoral.

Mas se o congresso do PS discutir isso no princípio do ano…?

Foi o que expliquei: nunca discutimos isso no partido, nunca discutimos isso na sociedade.

Neste momento não se compromete com essa questão para o programa para as próximas eleições?

Veremos, veremos! Não me quero comprometer com nada a não ser com um debate dentro do PS e na sociedade. Reparem, eu não lidero um pequeno partido. Admito que os pequenos partidos possam ter agendas para responder apenas aos seus simpatizantes. O PS é um partido que aspira a ter um conjunto de propostas nas quais uma grande maioria [de pessoas] se possa rever. Eu convivo bem dentro do partido com pessoas que pensam de formas diferentes em muitas matérias. E para acabar: essa questão não foi suficientemente discutida no País para agora um parlamento dizer, de um dia para o outro, que vai aprovar essa lei.

Mas eu não estava a falar deste processo passado, estava a falar do futuro…

Quanto ao futuro, como digo, sou a favor, tenho essa posição há muito tempo.

Mas não se compromete que isso esteja no programa eleitoral?

Não me comprometo, porque é preciso envolver muito mais pessoas. Nunca ouvi outras pessoas. Nunca discutimos isso no Secretariado, na Comissão Política, na Comissão Nacional, no Congresso… Há momentos para tudo.

Isto podia sair de um filme de comédia ou de um qualquer programa dos gatos fedorentos que andam por aí a gozar com os políticos. Mas não. É o Primeiro-Ministro de Portugal. Para ver o estado a que chegámos.

E, puxando a brasa à minha sardinha, alguém acredita mesmo que Santana, Passos ou Leite responderiam neste tipo de registo? Ou, respondendo, que ficariam impunes? É para perceber o diferente nível de exigência conforme se trata de militantes do PS e do PSD – é claro que, como o PS é “social” e “defende” os pobrezinhos, até se deixa passar algumas faltas (como aquele aluno que tem tudo certinho mas não tem grande qualidade académica, e o professor lá lhe dá um jeito). De qualquer forma, aqui estamos nós para lembrar.

* Lendo esta entrevista, lembrei-me daquele diálogo imaginado entre Barack Obama e o Presidente Jed Bartlet da série West Wing (via Farmácia Central).

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Bom Jornalismo

Outubro 23, 2008

Há bom jornalismo e mau jornalismo. É muito difícil chegar ao bom jornalismo, porque não só é mau o jornalismo manipulado, ou influenciado pelo poder: também há mau jornalismo quando há uma omissão no dever de informar, ou na informação dada. O leitor pode facilmente ser induzido em erro quando um meio de comunicação social se abstém de referir que algo que é dito ou apresentado aos jornalistas não é correcto.

A propósito da discussão do Orçamento do Estado, é engraçado ver uma notícia do DN que se esquece da contradição nas afirmações do Ministro Teixeira dos Santos ao atacar as propostas económicas recentemente apresentadas pela líder do PSD. Vejamos. A notícia começa por falar dos incentivos que o Governo quer “dar” à economia:

Os estímulos à economia em apoios fiscais às famílias e empresas vão custar 740 milhões de euros, enquanto os aumentos salariais na Função Pública terão um encargo de 360 milhões de euros. No total, os “estimulos” para evitar que a economia entre em recessão, estão avaliados em 1,1 mil milhões de euros, de acordo com declarações de Teixeira dos Santos, ontem, em Comissão parlamentar de Economia e Finanças.

Sobre as sete medidas do PSD, o DN relata a crítica do Ministro :

Medidas rejeitadas por Teixeira dos Santos e avaliadas pelo ministro em 1,45 mil milhões de euros. “Contas de merceeiro”, respondem vozes da bancada laranja. “Mas há quem não faça contas”, retorquiu de imediato Teixeira dos Santos.

E depois avança-se para uma análise detalhada do custo de algumas propostas do PSD (sem nenhuma palavra de condescendência – ver sublinhado na primeira citação).

Mas o jornal esquece-se de relacionar os números do Ministro. Faço-o eu. Considerando que as contas quanto ao custo das propostas do PSD estão certas, a diferença entre estas e as do Governo é de, veja-se, 350 milhões. Ou seja, o Ministro diz que as propostas do PSD colocariam em causa a consolidação orçamental, mas isso é totalmente falso. Ainda que se considere que parte das medidas adoptadas pelo Governo também o seriam por um Governo PSD, o produto nunca seria resultado da mera soma entre ambas as propostas.

Ao ler a notícia, quase cheguei a acreditar que o PSD tinha sido irresponsável. Certamente, irresponsável não foi o Ministro, que, político que é, fez o seu papel em tentar destruir as propostas da oposição a todo o custo. O Diário de Notícias é que, ao não questionar as afirmações do governante, praticou um acto de desinformação.

Isto é demonstrativo da crescente falta de consciência no jornalismo. Cada vez mais, os jornais portugueses assumem-se como uma espécie de relatores dos políticos. Apenas se compila cegamente o que diz cada partido (nem falo no esquecimento a que os movimentos independentes estão votados). Nem mesmo contradições e manipulações baratas se desmistificam.

Quem ganha com isto? Os políticos que mentem mais.