
Sunday Talk: Guerra na Geórgia
Agosto 17, 2008No dia em que a Rússia deixa escapar intenções de sair da Geórgia, aproveito para criticar aqui algumas coisas que têm sido ditas.
A primeira delas é a ideia de que os EUA caíram numa contradição fatal nesta questão. O primeiro passo numa situação destas é o reconhecimento, acto unilateral dos estados, que pressupõe um momento anterior de reflexão sobre se uma determinada população tem ou não razão em exigir a independência. Depois, em função do resultado dessa análise, cada Estado reconhece ou não as pretensões independentistas, tendo o direito de criticar quem contraria esse entendimento e de defender quem acha que tem razão. Haveria contradição no não reconhecimento da independência da Ossétia do Sul por parte dos EUA caso se tratasse de uma situação idêntica à do Kosovo, mas isso não ocorre. É que o caso concreto em apreço não se reduz, como referi noutro post, à dialéctica autonomia vs. integração.
E aqui começa a segunda ideia equivocada. Há quem diga que a Rússia assumiu, neste processo, as vestes de “Ocidente”, como se a sua intenção fosse a de libertar um povo oprimido. No entanto, a História recente comprova que esse não é, de todo, o sentido da política externa russa, crescentemente violenta e dominadora. Um olhar mais atento confirma que, neste caso, essa tendência mantém-se, e permite concluir que o verdadeiro objectivo russo é uma anexação de facto. Se não, porque daria Vladimir Putin passaportes russos aos ossetas? Do mesmo modo, ainda hoje, fontes do Ministério da Defesa russo asseguraram aos media que o exército russo manter-se-á na Ossétia do Sul e na Abkhazia.
A ajuda russa à independência desses territórios não passa de uma farsa, do mesmo modo que as razões humanitárias invocadas para a intervenção são meros pretextos (ou a Rússia não praticou, ela mesma, genocídio e pilhagem?).
- Para quem tem dúvidas sobre as razões da “misteriosa” continuação do exército russo em território georgiano (eu dou uma pista: um dos princípios orientadores de uma guerra é a literal destruição económica do inimigo), Declaração de intenções, n’O Insurgente [12/8/08].