Paulo Pinto Mascarenhas faz o melhor retrato possível de algo que já é há muito notório: que as reformas deste governo são nada, que Sócrates ideologicamente navega conforme a maré, que esta legislatura fica marcada por meias medidas, um projecto de intenções gastador (vulgo, obras públicas), umas questões simbólicas e programas mal-feitos. É um Governo cujo principal objectivo não está em salvar o barco, mas em ir tirando alguma água que vá entrando, tapando alguns buracos, ou pintando o casco (mas sempre da mesma cor). É um Governo mais ou menos.
É um governo de um partido mais ou menos socialista, mais ou menos reformista, mais ou menos liberal que quer alcançar uma nova maioria mais ou menos absoluta. As suas reformas foram mais ou menos: ficaram no papel, a começar pela avaliação dos professores, que seria mas nem sequer foi uma avaliação mais ou menos. Os seus projectos são mais ou menos: o TGV ficou-se pelos carris, num comboio que se espera possa vir um dia a ser de mais ou menos velocidade – e agora ficámos também a saber que o novo aeroporto foi mais ou menos adiado para a próxima legislatura. O TGV e o aeroporto que eram desígnios nacionais ficam a ver navios, mais ou menos como se nunca tivessem existido. Quatro anos depois, o país ficou mais ou menos adiado.
Com a novela ‘não sei o que se passa na PT, não tenho que saber nem me envolver em negócios de uma empresa privada, Deus me livre de querer interferir na comunicação social, mas agora que sei vou proibir o negócio para que não suspeitem de mim’ da PT e tentativa de compra de parte do capital da TVI, algo que era evidente tornou-se estonteantemente claro: a participação do Estado em empresas (empresas públicas ou através da CGD), a CGD ou as golden shares em empresas privatizadas não existem para servir nenhum interesse estratégico do país mas tão-só para defender os interesses tácticos de cada governo.
Enquanto não obrigarmos o Estado a livrar-se destes tentáculos mais ou menos assumidos com que controla as empresas e a nossa pequena economia, nenhum governo estará imune à tentação de estender a sua influência a sectores onde não deve – e, bem vistas as coisas, não deve estar em nenhum sector empresarial.
Não, não, não. Não destruam a fatia dourada do Estado. Transfiram-na mas é para mim, s.f.f. Eu juro que só a uso para o bem comum.
Isto, há-que dizê-lo para lá de qualquer dúvida, é vergonhoso. Não porque eu seja um moralista anti-dança-das-cadeiras (sou-o quando a dança é constante, reiterada e sempre com os mesmos protagonistas, mas não necessariamente quando uma pessoa esporadicamente sai de um cargo para assumir outro), e sim porque Rangel se assumiu como tal na campanha europeia. O cabeça-de-lista do PSD esteve na linha da frente de um ataque cerrado às euro-candidatas socialistas que anunciaram também uma candidatura autárquica (Ana Gomes e Elisa Ferreira). Apesar de a doutrina puritana e formalista assumida pela liderança de Manuela Ferreira Leite de não candidatar ninguém a duas eleições de natureza diferente não estar aqui em causa, o efeito prático é semelhante: Rangel não abandona funções de eurodeputado para ser candidato a deputado nacional, mas fá-lo automaticamente se for convidado para ser ministro?
Paulo Rangel: moralista ou mais um politiqueiro? A maior credibilidade do PSD face ao PS fica em causa.
Porém, não se trata apenas de uma contradição com o posicionamento resultante daquela crítica ao PS. Rangel chegou a sugerir claramente, num debate, que só abandonaria o Parlamento Europeu “se morresse“. Passaram uns dias, e parece que tudo mudou. Não é, por isso, exagerado pensar que Rangel terá mentido deliberadamente aos eleitores – e isto, sim, coloca a seriedade (e a bandeira da “credibilidade“) de Manuela Ferreira Leite em cheque. Fica a parecer que a “moralidade” tem prazo de validade – a campanha eleitoral. Determinante será saber se este foi um acto isolado de Rangel, ou se teve a cobertura da liderança do PSD.
Termino com algum moralismo contra os moralistas: sendo certo que deve haver e que se deve promover a ética na política, é por coisas assim que não se pode confiar em políticos que passam a vida a pregar a moral e que não hesitam em atacar o mínimo sinal de “imoralidade” dos seus oponentes, como fez Rangel na campanha europeia. Estou francamente desapontado com este seu acto de contradição em relação à sua própria “moral”, e de engano aos eleitores – não que isso conte muito para fazer parar as falsas promessas dos políticos. Fica provado que não é por acaso, nem por culpa de apenas um partido, que as pessoas já não acreditam neles.
Depois da entrevista de ontem de José Sócrates (em que ele surgiu, tal como no debate quinzenal, com um novo e inusitado ar calmo e controlado), A Esfera tem a honra de apresentar, em primeira mão, a música que fará a banda sonora da campanha da reeleição do Primeiro-Ministro.
4. Contra a maioria das previsões (incluindo a minha) o PSD venceu estas eleições. As previsões não se enganaram tanto no resultado do PSD (eu apostava nos 32/33%, muito próximo do que veio a ser o resultado absoluto do partido). Poder-se-á, mesmo, dizer que foi o PS que perdeu, e mais nada (até pelo carácter multipartidário dos resultados). Mas a verdade é que o PSD é o único partido alternativo ao PS e, em termos relativos, ficou-lhe à frente. Isto dá-lhe um fôlego incontestável na corrida que se segue: se uma diminuição significativa do fosso exigiria, ainda assim, uma argumentação (por exe., somando os resultados com o CDS, ou lembrando a queda do PS), uma vitória dispensa argumentos.
O PS continua à frente nas sondagens para as legislativas, mas o efeito psicológico destes resultados não pode ser subestimado: a “invencibilidade” de Sócrates foi posta em causa. Estas Europeias podem, por isso, ser o Iowa de Manuela Ferreira Leite. “Podem“, porque ela agora terá de escolher um substituto para Rangel no Parlamento. “Podem“, porque há uma campanha a fazer e um projecto a apresentar. ”Podem“, porque MFL tem de conquistar a confiança pessoal dos eleitores, que cada vez menos votam nos partidos, para cada vez mais votar na pessoa que o lidera.
Mas MFL já conquistou uma coisa: o partido. Ela é hoje a líder incontestável. Para além do resultado em si, o seu contexto desacredita as alternativas internas: Rui Rio liderou a contestação à escolha do cabeça-de-lista que viria a dar a vitória ao PSD; Pedro Passos Coelho exigiu essa vitória, sugerindo que a líder não teria legitimidade se não a atingisse. No entanto, a tarefa não será fácil. É que a derrota do PS ficou a dever-se, em muito, a uma descoordenação interna que não se espera voltar a acontecer. Esta bem pode ter sido uma lição para José Sócrates, que estará mais atento e agirá agora com maior cuidado. Leia o resto deste artigo »
1. A primeira ilação deve ser tirada no contexto europeu. O PPE venceu, pela terceira vez consecutiva, as eleições, o que significa uma derrota clara das teses anti-liberais que pronunciavam o fim do capitalismo. Durante mais de meio ano, o Ocidente enfrentou uma ditadura do consenso entre opinion makers (entre os quais o Vaticano, que resolveu uma vez mais sair dos assuntos de espírito, para se preocupar com essas coisas carnais), afirmando que a única forma de resolver a crise seria desmantelar o mercado. É muito significativo, por isso, que se tenham alcançado esses resultados, logo no espaço geo-político onde há maior intervencionismo do Estado - a Europa. Durão Barroso é a personificação desta vitória, continuando a ser a “cabeça” da segunda maior democracia do mundo. Começa aqui o segundo round de mais um confronto entre socialistas e liberais, proteccionistas e “globalizadores”, enfim Estado e mercado.
2. Por outro lado, tenho de deixar uma palavra de desagrado com a ascensão dos partidos xenófobos: o que representa, sem dúvida, a irracionalidade de um certo eleitorado que, à boa maneira medieval/tribal, continua a culpar os estrangeiros pelas “doenças, fomes e guerras“. Independentemente das divergências de concepção do Estado e da sociedade que tenho com a esquerda democrática, sei que dela não vem este tipo de desumanidade. Sem dúvida que, tendo de escolher entre um PS ou um PNR, optaria pelo primeiro – é uma questão de princípio, mais do que de ideologia. Não defendo a ilegalização destes partidos, porque isso não é solução (a ser assim, também teríamos de ilegalizar comunistas e anarquistas). A melhor forma de lidar com eles é demonstrando que não têm chance numa sociedade avançada que aprendeu a lição com as experiências nazi e fascistas. Infelizmente, não foi isso que aconteceu desta vez.
3. Uma possibilidade que não gostaria que fosse real seria os europeus terem votado contra a Europa – i. é, contra o federalismo. Não haja dúvidas de que “a União faz a força“. Os exemplos são claros, mesmo no quotidiano. Por isso, num contexto global cada vez mais competitivo e ainda politicamente difícil, a pulverização dos centros de decisão internacionais dos europeus (diplomacia, defesa) apenas contribui para a decadência dos seus povos. Mas é apenas uma hipótese, uma hipótese em que, por ser inconclusiva e não comprovável, prefiro não acreditar.
TAF vota em branco. Entretanto, põe uma questão pertinente, e fantasia uma ideia que nem é assim tão descabida:
Compreende-se a abstenção como reflexo da indignação generalizada. Mas é combater um mal com outro mal: como se distingue o cidadão indignado do cidadão desleixado? A “abstenção responsável” é o voto em branco, pois inequivocamente mostra descontentamento. Há uma sugestão excelente mas nunca aproveitada: a abstenção e os votos em branco deveriam “eleger deputados”. Por exemplo, 40% de abstenção significaria 40% de cadeiras vazias no Parlamento. Eis uma maneira simples de criar nos deputados forte interesse na participação política dos cidadãos! Aposto que com esta nova regra os próximos tratados seriam milagrosamente fáceis de entender, as leis mais bem preparadas, a prestação de contas bem cuidada.
O colunista do Público e comentador do Jornal Nacional de 6.ª (TVI) apresenta daqui a pouco, na Figueira, o seu novo livro, sobre Portugal no Século XX. Imperdível.
O Figueirense:
Um dos mais polémicos pensadores portugueses da actualidade, Vasco Pulido Valente, estará no Casino Figueira pela mão da Aletheia, a 3 de Junho [hoje], pelas 18H30. Conhecido pelas suas análises cáusticas, Pulido Valente traz à Figueira da Foz o seu mais recente livro, “Portugal – Ensaios de História e de Política”, uma obra que, segundo o administrador do Casino Figueira, “nenhum português deveria deixar de ler”
No lançamento, em Lisboa, Leonor Beleza apostou que “o Vasco acha que as coisas não vão mudar”. Eu também proponho uma aposta em relação à obra: quem quer apostar comigo em como o livro não é lá muito simpático?
Duas notas prévias antecedem as considerações. A primeira é para dizer que o PSD é o partido a que estou indesmentivelmente ligado. Portanto, parte sempre em vantagem no que toca a escolher quem eu apoio ou em quem voto. A nota segunda serve para denunciar a notória falta de democraticidade nas escolhas dos partidos (e do PSD) para candidaturas no nosso país, seja nas autárquicas, nas europeias ou nas legislativas. As escolhas são feitas dentro dos comités dos partidos, em processos pouco transparentes, e são utilizadas para fortalecer o líder e os interesses que lhe sejam sensíveis. É uma situação que não deve continuar, e o PSD poderia muito bem ser o precursor do alargamento das primárias internas a todos os candidatos (tenho dúvidas quanto ao Presidente da República, dada a forma como se processam as campanhas presidenciais). Não o fez quanto aos candidatos às Europeias (ou aos das Autárquicas), e tudo indica que perderá as próximas oportunidades para isso.
1. Durão Barroso é o principal e o primeiro motivo que me impeliu a votar no PSD. Não é preciso dizer muito. Ele representa o mais próximo possível do mercado livre e da globalização em Bruxelas. Não tem um complexo anti-americano (embora talvez tenha algum complexo de inferioridade…). Teve a coragem de apoiar Bush, quando 2/3 da Europa o demonizava, e deu a Portugal notabilidade política internacional. Essa sua capacidade internacional já vinha, de resto, sendo notada: enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros, conseguiu concluir um acordo histórico de paz entre a UNITA e o MPLA em Angola. Enquanto Presidente da Comissão, contornou um cepticismo xenófobo inicial, soube gerir assuntos difíceis, e assumiu protagonismo ao desafiar as políticas económicas de Sarkozy violadoras da Ordem Comunitária. Neste momento, está a preconizar a primeira luta a sério contra a burocracia em Bruxelas. Enquanto o PS debate internamente sobre se apoia ou não o actual presidente, o PSD é a garantia do voto dos representantes portugueses no Parlamento Europeu em Durão Barroso. Leia o resto deste artigo »